Dor, violência e sofrimento
O dossiê "Dor, violência e sofrimento" que abre o número 116 de Estudos Avançados procurou explorar cenários emergentes que traduzem em grande medida nossa contemporaneidade. Reafirmando seu compromisso com a abordagem de temas atuais e de grande relevância para a ciência e para o debate público, abre a edição com uma discussão sobre os usos políticos e os riscos analíticos no emprego corrente de termos como narcoterrorismo e narcoestado. Trata-se de discussão oportuna justamente quando a política externa do governo Trump procura classificar organizações brasileiras, como Comando Vermelho (CV) e Primeiro Comando da Capital (PCC), como terroristas. Veja abaixo alguns destaques.
Trauma Exame psicológico dos testemunhos de hibakusha, mais especificamente da história da sobrevivente Keiko Ogura (foto) ao bombardeio atômico à cidade de Hiroshima, no Japão, ao longo da Segunda Guerra Mundial (1939-1945). Foi dada atenção especial a dois fenômenos psicológicos fundamentais para a compreensão dessas memórias: o trauma e o sentimento de culpa. Tanto o trauma quanto a culpa apresentaram-se como elementos centrais no sofrimento dos sobreviventes, mas também propuseram caminhos de elaboração do evento atômico. |
Invisibilidade social Axel Honneth (foto) propõe uma reformulação epistemológica da teoria do reconhecimento a partir da análise da invisibilidade social, inspirada no romance O Homem Invisível de Ralph Ellison. Para Honneth, a invisibilidade não remete à ausência perceptiva literal, mas a uma forma simbólica de desrespeito: o ato de “olhar através” do outro nega-lhe reconhecimento como sujeito moral e social válido. Essa experiência constitui-se numa violência silenciosa que compromete a formação da identidade e a autoconfiança. |
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Interpretações do Brasil O artigo discute o livro A Revolução Burguesa no Brasil em seu cinquentenário. Argumenta a favor do estatuto de clássico do livro de Florestan Fernandes (foto) e mais do que isso pela atualidade da sua tese sobre a autocracia burguesa. Uma breve comparação com Os donos do poder, de Raymundo Faoro, busca esclarecer as condições adversas de recepção do livro de Florestan no contexto de transição democrática que então se construía. |
Resistência Publicado na França em 2022, Rester barbare (La Fabrique) é o primeiro livro da jornalista e ensaísta Louisa Yousfi (foto). Em 2025, a obra ganha edição brasileira sob o título Permanecer bárbaro: não brancos contra o império (Autonomia Literária; GLAC Edições). Propõe um gesto de inversão semântica e política: reapropriar-se da palavra “bárbaro” – historicamente utilizado para designar alteridade negativa, associada à incivilidade e à violência – para transformá-la em posição afirmativa de enunciação insurgente, capaz de recusar a promessa de integração. O que poderia soar como provocação retórica adquire, no livro, densidade de manifesto: permanecer bárbaro é, sobretudo, resistir à tentação de pacificação e ao ideal republicano que exige domesticação das subjetividades não branca. |




