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Ações em museus e bienais problematizam as categorias museológicas

por Sylvia Miguel - publicado 14/02/2017 14:05 - última modificação 17/02/2017 10:26

Curadores, críticos de arte e professores debatem a necessária revisão de conceitos que orientam o planejamento e as exposições em espaços museológicos
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Os trabalhos do polêmico Ai Weiwei, a arte desestabilizadora de Tunga e Lina Bo Bardi, além das propostas heterodoxas de espaços museológicos como o Museu Maguta, criado em 1985 como símbolo da resistência dos índios Tikuna do extremo oeste do Amazonas, o Museu Histórico de Canudos, na Bahia, e também o Museu da Maré, no Rio de Janeiro, foram lembrados como alguns exemplos de narrativas não lineares e de relações horizontais que expressam as novas premissas envolvendo o sistema museológico e a arte pós-conceitual do século 21, durante o debate O Museu das Coisas Intermediárias, realizado no dia 9 de fevereiro no IEA.

A ideia inicial era trazer a visão do curador, escritor e pesquisador Roger Buergel sobre o modo transcultural, ou pós-colonial de operar seu trabalho. Mas o atual diretor do Museu Johann Jacobs, de Zurique, Suiça, e curador da 12ª Documenta de Kassel (2007), Alemanha, teve que cancelar seus compromissos no Brasil por motivos de saúde.

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O debate, porém, manteve a proposta de investigação das inter-relações artísticas e suas formas de diálogo quanto às categorias museológicas e disciplinares e as relações de espaço e tempo. Participaram o curador e crítico de arte brasileiro Eduardo Simantob, que vem atuando com Buergel há cerca de dois anos, o professor Carlos Roberto Ferreira Brandão, atual diretor do Museu de Arte Contemporânea (MAC) da USP e ex-diretor do Museu de Zoologia (MZ) da USP, o professor emérito José Teixeira Coelho Netto, da Escola de Comunicações e Artes (ECA) da USP, a curadora, crítica de arte e professora Lisette Lagnado, atual diretora da Escola de Artes Visuais do Parque Lage do Rio de Janeiro, além do curador, jornalista e crítico de arte Marcelo Rezende.

O encontro organizado pelo Grupo de Pesquisa Fórum Permanente teve a moderação do seu coordenador e ex-diretor do IEA, professor Martin Grossmann, da ECA-USP.

Lisette Lagnado e Eduardo Simantob

Lisette Lagnado e Eduardo Simantob (esq.), em debate sobre museus no dia 9 de fevereiro no IEA

A reconstrução de um novo discurso sobre o objeto e a função da arte contemporânea, que tem sido a busca de Buergel, foi evidenciada por Simantob ao lembrar a diretriz curatorial sobre a qual Buergel vem atuando no museu Jacobs, a qual já havia sido delineada na Documenta de 2007, cujo tema foi “Migração da Forma”.

“Dizemos que o Jacobs é um museu em processo. Nasceu a partir da Fundação Jacobs, entidade privada ligada ao comércio de cacau e café e que, portanto, teve uma participação ativa nos processos coloniais de exploração de matérias primas da África, Ásia e América do Sul. Buergel viu, a partir da biblioteca temática de mais de 6.000 volumes do museu, a chave para trabalhar a mutação da forma ao longo de séculos de comércio do café, mostrando o outro lado. Em vez da primazia do artista, o que vale são as relações engendradas no processo artístico com a etnografia, a história e também a academia”, disse Simantob, que foi repórter, editor e gerente editorial multimídia da Folha de S. Paulo e atualmente está vinculado ao programa de Ciências e Artes Aplicadas da Universidade de Lucerne, Suíça.

A questão da mutação da forma é central dentro dessa metodologia, segundo Simantob. Outro ponto é que as premissas envolvendo o sistema e as categorias museológicas europeias não funcionam mais ou não conseguem dar conta do novo momento pós-conceitual da arte contemporânea. Por conta disso, o museu Jacobs está envolvido em parcerias inéditas, com coleções da China, Senegal, Brasil, Haiti, entre outros países, numa relação horizontal que não reproduz as formas colonialistas ou neocolonialistas no seu esforço de tradução da cultura, segundo o curador.

As narrativas não lineares trabalhadas no museu Jacobs são provocativas ao ponto de levar o expectador a um tipo de frustração que se traduz num choque positivo, levando à reflexão, disse Simantob. Nesse sentido, o pensamento de Lina Bo Bardi foi importante e inspirador para o trabalho de Buergel.

 

Objeto intermediário e categorias museológicas

“A noção do objeto intermediário, muito presente em Ai Weiwei e até em Lina Bo Bardi, está voltada à inclusão do outro. O termo objeto intermediário ativa a nossa atenção para as subjetividades difusas, os povos primitivos e outros saberes que vão além das representações e do conceito iluminista de museu”, disse a professora Lisette,  curadora da 27ª Bienal de São Paulo de 2007, cujo tema foi “Como Viver Junto”.

Para Lisette, as experiências colaborativas e a desestabilização dos agentes tradicionais que atuam no circuito artístico levam a um questionamento sobre as possibilidades de dissolução de uma singularidade única que faz sentido apenas a um sistema burguês do gesto do artista. As instaurações de Tunga (Antônio Jose de Barros Carvalho e Mello Mourão), considerado uma das figuras mais emblemáticas da cena artística brasileira atual, carregam, segundo Lisette, a fusão entre instalação e performatividade, dando a noção de coisas ou objetos transitórios que funcionam como disparadores de algo, como o começo e não o fim em si mesmos, compara Lisette.

Carlos Brandão - museus
Carlos Brandão, do MAC: dificuldade com categorias não é uma novidade no campo museológico

Brandão, atual diretor do MAC-USP, contextualizou a discussão dentro da evolução histórica de alguns museus da cidade de São Paulo, criados ao longo do século 19 e 20 a partir de coleções do Museu Paulista e que desde os seus primórdios convivem com os dilemas e as dificuldades da categorização museológica.

“O Museu Paulista era um museu enciclopédico e já no seu primeiro relatório de gestão, publicado em 1895, falava da dificuldade de categorizar objetos de museus. O que vimos foi um esfacelamento daquela instituição em vários outros museus específicos – as coleções de arte se desmembraram para formar em 1905 a Pinacoteca do Estado; as de botânica formaram o Instituto Botânico em 1922, e assim também se formaram o museu de Zoologia em 1939, o Instituto de Astronomia e Geofísica em 1954 e o Museu de Arqueologia e Etnografia (MAE), em 1988”, disse.

“O resultado é que essas instituições têm muitas dificuldades atualmente para trabalhar com categorias tão restritivas. Então temos que pensar por que categorias nos causam problemas. Justamente porque não atendem mais ao que é a vida hoje”, disse Brandão.

O diretor lembrou o Museu Maguta, na cidade de Benjamin Constant, na fronteira do Acre com o Amazonas, para abordar uma proposta de museu virtual como contraponto ao museu baseado em objetos reais. “Apesar de ser um museu indígena, ao contrário do que se espera, não há nenhum objeto indígena, mas filmes mostrando rituais e a confecção desses objetos. A reificação de objetos é uma característica da nossa cultura. Para os índios, os objetos em si não fazem sentido. Ao contrário, só têm sentido na hora em que são usados. Estamos num momento em que precisamos inventar novos modelos e novas formas de representar as relações, não importa o objeto. Hoje os museus contestam a estetização como fim em si mesma”, disse.

 

Uma “reciclagem” para dirigentes do campo artístico

O Museu de Arte de São Paulo Assis Chateaubriand (MASP) perdeu uma grande oportunidade de sair de uma orientação curatorial hierárquica, verticalizada e baseada em categorias, ao recusar uma coleção “lindíssima” e “valiosíssima” de objetos etnográficos asiáticos que não seguia uma linha cronológica, disse o professor Teixeira Coelho, referindo-se a uma coleção recusada pelo conselho curatorial durante o período em que o professor ocupou o cargo de Curador Coordenador da instituição, de 2006 a 2014. A coleção em questão, de Fausto Godoy, é referida pelo próprio colecionador como “um arco etnológico, um conceito”. Contém mais de 2,5 mil peças de 11 países asiáticos, incluindo objetos contemporâneos e outros datados de 3.500 a.C, colecionados pelo diplomata desde que assumiu a embaixada do Brasil na Índia, em 1984.

Teixeira Coelho - museus

Teixeira Coelho, da ECA-USP: classes dirigentes de museus no Brasil precisam saber o que o mundo de hoje pede e espera da arte

“O público do MASP está acostumado a ver alguns tesouros da arte européia. Então, haveria a oportunidade de desestabilizarmos a recepção do público ao colocarmos objetos intermediários, transitórios, ao lado de objetos artísticos tradicionais. Ela não só foi recusada como também foi devolvida, depois de ter sido instalada e com todos os contratos pensáveis fechados. Perdeu-se a chance de expor ao público esses objetos heteróclitos”, disse Teixeira Coelho.

O professor da ECA vê o episódio como um exemplo da influência desproporcional das classes dirigentes sobre os muitos campos que formam a mentalidade brasileira atual. “Ficaram espantados quando viram entrar no museu uma coleção que não tinha uma costura cronológica, categorizada. Parecia um escândalo que uma bicicleta tailandesa pudesse estar ao lado de um objeto artístico clássico”, lamenta.

“Então proponho aqui uma residência de dirigentes. Em vez da dissolução do gesto do artista ou a frustração do público, proponho uma atualização de dirigentes sobre o que o mundo de hoje pede e espera da arte. O papel dos estamentos dirigentes nas instituições brasileiras é muito forte e esse protagonismo também é muito sentido no campo das artes. Veja os exemplos de Cicillo Matarazzo, Assis Chateaubriand. Mas me refiro também ao papel da política e da economia sobre a arte”, disse o professor, que é coordenador do Grupo de Estudo Humanidades Computacionais do IEA.

Imagens: Divulgação e Fernanda Cunha Rezende-IEA