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Encontro discute causas da corrupção na política e propostas para reduzi-la

por Mauro Bellesa - publicado 29/03/2017 12:10 - última modificação 03/08/2018 16:43

Seminário "O Desafio da Corrupção na Política e a Exigência de Alternativas", ocorrido no dia 9 de março, reuniu sete pesquisadores. Evento encerrou o ciclo de encontros do laboratório Megatendências Globais e Desafios à Democracia.
Seminário Desafio da Corrupção na Política e a Exigência de Alternativas
Seminário foi o quarto e último encontro do Laboratório Megatendências Globais e Desafios à Democracia

A corrupção na política é causada por vários fatores individuais e da organização da sociedade, não apenas por desvios morais. E além de ser um crime, tem um efeito devastador na democracia e na cidadania.

Como entendê-la melhor e identificar medidas eficazes na sua redução foi o tema do seminário O Desafio da Corrupção na Política e a Exigência de Alternativas, no dia 9 de março. Foi o quarto e último encontro do Laboratório Megatendências Globais e Desafios à Democracia, iniciativa do IEA em parceria com o Instituto de Relações Internacionais (IRI) da USP. Assista o vídeo do encontro.

O seminário teve quatro perguntas como referências para o debate:

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Os debatedores foram: Renato Janine Ribeiro, da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FLCH) da USP, ex-ministro da Educação e um dos coordenadores do laboratório; Pedro Dallari, diretor do IRI-USP e professor da Faculdade de Direito (FD) da USP; Ana Bechara, da FD-USP; Marcos Gonçalves da Silva, da FGV-SP; Helcimara Telles, da UFMG; e Esther Solano, da Unifesp. O moderador foi Álvaro de Vasconcelos, pesquisador do IRI-USP, diretor geral do Instituto de Estudos Estratégicos e Internacionais de Lisboa (IEEI) e parceiro de Janine na coordenação do laboratório.

Álvaro de Vasconcelos - 9/3/17
Álvaro de Vasconcelos

Corporações e democracia

Na abertura do seminário, Vasconcelos afirmou que o problema central em termos de desafios à democracia é o sentimento dos cidadãos de que as alternativas políticas estão muito limitadas e que as políticas não mudam, independentemente de como eles votam. "O exemplo mais significativo é a Áustria, governada desde a Segunda Guerra por liberais e sociais-democratas sem alteração da política. O que a extrema direita fez foi dizer que ela era uma alternativa.”

Uma das consequências dessa falta de alternativa, segundo Vasconcelos, é o que o movimento Occupy Wall Street chamou de "o poder do 1%" ou "corporate politics", com as corporações "dominando o campo político por meio do financiamento das campanhas eleitorais, tornando o partido ganhador dependente do apoio obtido das empresas".

Vasconcelos citou duas propostas para a minimização do problema. Uma é a decisão da cidade de Seattle, nos EUA, de conceder um "vale" no valor de US$ 25 a cada eleitor, para que ele o destine à campanha que quiser. Outra proposta em discussão nos EUA e a de implantação de um sistema misto de financiamento no qual o Estado concederia uma contribuição à uma campanha no mesmo valor doado a ela por um eleitor. A Suprema Corte americana, porém, consideração as restrições a doações para campanhas uma violação do direito de expressão, previsto na 1ª Emenda da Constituição do país, explicou Vasconcelos.

O debate sobre financiamento eleitoral é menor e as regras são diferentes na Europa, comentou. “Na Alemanha não há limite de quanto se pode doar para uma campanha eleitoral e a o partido da chanceler Angela Merkel dispendeu entre 20 e 30 milhões de euros na última eleição. Na França o limite é de 22 milhões. Nicolas Sarkozy, ex-presidente do país, disse que arrecadou 21 milhões na campanha presidencial de 2012, mas comenta-se que esse total na verdade chegou a 50 milhões."

Renato Janine Ribeiro - 9/3/17
Renato Janine Ribeiro

Corrupção pós-moderna

Ainda na abertura, Janine falou sobre o significado de "corrupção" ao longo da história. Lembrou que o sentido original do termo era a deterioração do corpo humano. "Depois passou a significar entre os romanos tudo aquilo que ia contra os princípios de severidade, rigor, virilidade, características que consideravam essenciais na vida política. A corrupção seria o amolecimento, o adorno, o luxo, que consideravam características femininas, impróprias para os homens. Aquilo que os antigos chamavam de corrupção é o que chamamos de liberdade dos modernos".

A ideia moderna de corrupção divide-se em duas vertentes, segundo Janine: corrupçao moderna e corrupção pós-moderna. "A moderna é o furto e não há distinção teórica entre furtar um indivíduo e furtar o coletivo. Mas de algumas década para cá temos a corrupção pós-moderna, que não é praticada pelo 'corrupto profissional' – e temos várias famílias oligárquicas no Brasil especializadas nisso –, mas pelo 'político honesto', uma pessoa honesta que se curva a regra do jogo, pois não vê como fazer sua política sem captar recursos.”

A seguir, os principais temas debatidos nas respostas
às quatro perguntas formuladas pelos coordenadores do evento.


É possível separar o dinheiro da política?

“O dinheiro coloniza a política”, na opinião de Renato Janine Ribeiro, que destacou algumas propostas para o combate a isso: os vales de Seattle, o crowding funding limitado, a proibição de contribuições de empresas e até a proibição de qualquer campanha fora da internet, para nivelar os recursos de divulgação dos candidatos.

No entanto, o próprio uso da internet em campanhas políticas pode ser bastante diferenciado e custar muito. Sobre isso, Janine comentou análise feita pela Cambridge Analytica sobre as estratégias usadas pelas duas principais candidaturas nas eleições americanas do ano passado.

Trata-se do segredo do Brexit [decisão do Reino Unido de sair da União Europeia] e da eleição de Donald Trump, segundo Janine. Hillary Clinton fez uma campanha tradicional, procurando identificar os grupos sociais e o que pensam para elaborar propostas para eles, mas a internet permite algo mais detalhado, com a especificação de características e preferências de centenas, milhares de grupos, chegando quase ao nível do indivíduo, estratégia usada por Trump, explicou Janine.

“Isso permitiu as campanhas a favor do Brexit e de Trump (ambos contrataram a Cambridge Analytica) que mandassem mensagens individualizas às páginas das pessoas no Facebook, tanto para fidelizar os eleitores a favor e conquistar potenciais eleitores quanto para criticar os oponentes em mensagens aos eleitores deles.”

Para fazer isso também é preciso ter dinheiro, “talvez nem tanto quanto o necessário para um uma campanha gigantesca de televisão, mas tem de ser um dinheiro bem usado”, comentou.

Esther Solano - 9-3-17
Esther Solano

Esther Solano foi enfática sobre o financiamento de campanhas: “Não existe doação de empresas, o que existe é a compra de votos e parlamentares”. Dada a existência da “corporate politics”, ela disse ser duvidosa a possibilidade de uma compatibilidade entre a "corporocracia" e a democracia. “O que temos é uma privatização da coisa pública e da cidadania. O indivíduo se supõe cidadão, mas na verdade é um indivíduo privatizado.

Ela disse haver “uma promiscuidade muito clara entre o mundo corporativo e o mundo político”. Lembrou que ao começar a crise em 2008, no final do governo Bush, o secretário do Tesouro dos EUA era Henry Paulson, ex-presidente do banco de investimento Goldman Sachs, “e um dos principais assessores de Obama foi um dirigente da General Electric”.

“É ingênuo afirmar que seja possível separar o dinheiro da política”, segundo Ana Bechara, “assim como parece contraditório pensar na democracia como princípio de igualdade nos processos de participação social num ambiente de profunda desigualdade econômica, cujos interesses vão falar mais alto”.

No entanto, ela ressalvou que não se deve pensar na corrupção do ponto de vista estritamente moral, pois “dizer que os homens são corruptos por uma questão de caráter pode levar a uma postura conformista, ou seja, não se vai resolver nunca o problema da corrupção”.

Para Ana, numa sociedade cada vez mais complexa, administração pública se torna cada vez mais anômica. “Com a pulverização do poder e setorização da administração, surgem mais gastos, mais controles, problemas de manutenção e mais confusão na forma de esses setores se relacionarem.” Isso leva a uma sensação da sociedade de que a perda de dinheiro público devido aos custos dessa pulverização faz parte do sistema, explicou. “E aí começa a desaparecer o caráter antiético da corrupção.”

Ao contrário dos outros debatedores, Marcos Fernandes da Silva tem uma visão mais otimista sobre o futuro das relações entre as corporações e o mundo político. “O próprio fato de as relações entre corporações e corrupção agora serem debatidas no ambiente acadêmico e em várias partes do mundo me deixa otimista. Não havia essa discussão no contexto ocidental antes.”

Silva disse que a corrupção é uma das formas de desvirtuamento da atividade pública ocasionadas pelas corporações. “Existem outras quando os lobbies não são transparentes.” Ao contrário de Esther, ele não vê problema na participação de dirigentes de corporações num governo, “desde que a representação não seja de setor, mas de empresa”.

Desde o capitalismo clássico, a evolução da estrutura de governança corporativa se expande em direção à comunidade e à sociedade, de acordo com Silva. “A partir dos anos 70 na Europa, sobretudo na Alemanha, com o Partido Verde, temos uma ampliação da estrutura de controle sobre o comportamento corporativo, exercido basicamente por consumidores e comunidades e também por grupos de acionistas agora.”

Segundo ele, é importante notar isso para perceber que a relação entre indivíduos do setor privado e do setor público "não é necessariamente problemática, seja em termos de lobby ou mesmo em termos de corrupção, apesar de sempre haver esse risco”.

Os riscos atuais se chamam Vale do Silício e Facebook, comentou. “A importância do Mark Zuckerberg [presidente do Facebook] nas últimas eleições americanas foi muito maior do que aquela de qualquer banqueiro na história eleitoral dos Estados Unidos.”

Outro ponto destacado por Silva é “a evolução das instituições internacionais, sobretudo a partir dos anos 90, no controle das relações entre corporações e setor público”. No novo panorama, a competição entre empresas de um mesmo setor leva uma a denunciar a outra em situações relacionadas a abuso de poder econômico, o que se aplica também ao caso de pessoas ligadas a empresas, como no caso do assessor de Obama oriundo da General Electric, explicou.

Helcimara Telles disse que as regras definidoras do que seja corrupção são diferentes em cada país e incomparáveis entre si. “As regras de Portugal são bastante diferenciadas das do Brasil, e estas são bastante diferenciadas daquelas dos Estados Unidos, onde o lobby é legalizado”. Para ela, parte significativa dacorrupção existente no Brasil é constituída por lobbies não legalizados. “Essa diferenciação entre os países dificulta inclusive a elaboração de uma metodologia para aferir qual deles é o mais corrupto.”

Campanhas de custo elevado acontecem, segundo Helcimara, em sociedades onde o eleitor é influenciável por informações conjunturais e sem preferências políticas sólidas. “Sociedades com baixa estruturação programática dos partidos, com preferências instáveis ou reduzidas, tendem a produzir informações rápidas que terão efeito sobre o voto e atitudes políticas de curto prazo.”

Helcimara Telles - 9-3-17
Helcimara Telles

Helcimara também tratou da tolerância à corrupção, mas por um viés diferente do apresentado por Ana Bechara. Ela disse que “quanto maior o volume de notícias de corrupção maior a percepção pública sobre ela, mas se esse volume for excessivo, pode aumentar a tolerância à corrupção, uma vez que deixa de ser um fato singular e passa a ser um componente da estrutura social e da política”.

Encerrando o debate da primeira questão, Pedro Dallari disse que as relações entre dinheiro e política suscita uma multiplicidade de aspectos, desde o financiamento de campanhas e organização econômica da sociedade até aspectos culturais e jurídicos.

“Minha maior preocupação é como pode-se tentar extrair dessa ‘geleia geral’ conclusões que nos permitam defender algumas medidas efetivas contra a corrupção. Nenhuma medida isolada vai resolver esse problema numa sociedade desigual como a brasileira.”

A interferência das corporações também tem de ter uma análise mais sofisticada, de acordo com Dallari: “Quando falamos de corporações geralmente temos em mente as multinacionais, mas no Brasil elas não patrocinam campanhas políticas. Mas de 80% dos recursos das campanhas provêm de construtoras e bancos”.

Dallari considera que o próprio sistema de lista aberta em eleições proporcionais (para vereadores e deputados estaduais e federais) é fator relevante para os custos das campanhas, pois “cada candidato vira um partido”.

“Já fui deputado estadual, já ganhei e perdi eleição, então conheço bem o assunto. Na lista aberta, cada candidato faz campanha contra todos os outros candidatos, inclusive os de seu partido. O partido tem uma previsão de quantas cadeiras conquistará, então seus candidatos disputam entre si para ver em que colocação ficarão na lista aberta.”

 

Qual o impacto da corrupção da política na democracia?

Esther Solano respondeu à questão a partir dos dados levantados em entrevistas com participantes das manifestações pró-impeachment em São Paulo em 2016. Segundo ela, os entrevistados não falavam do conceito de justiça e tratavam a questão do ponto de vista de uma moral “muito rasa”. Diziam que “o juiz Sérgio Moro representa o bem e vai passar o Brasil a limpo, com o ex-presidente Lula sendo a representação do mal”.

“Na luta contra a corrupção no Brasil há uma certa espetacularização seletiva por parte do Judiciário, que não distingue justiça de linchamento, uma vez que a presunção de inocência não pode ser garantida no espetáculo, que incentiva muito uma obsessão punitiva.”

Para Ana, “o principal efeito da corrupção está no campo democrático, com a descrença nas instituições públicas e a redução da cidadania a algo formal”. Isso leva ao fenômeno da politização do judiciário, com “a crença de que um juiz e o Ministério Público vão resolver a política brasileira, como se a penalização resolvesse o problema”, comentou.

Dallari apresentou uma avaliação mais otimista: “Do jeito que se fala, fica a sensação de estarmos em uma situação de colapso, na qual os sistemas políticos se inviabilizaram e o povo é manipulado”. Ao contrário, ele defende que houve uma evolução bastante significativa no contexto latino-americano, "com indivíduos empoderados, participação social e fortalecimento das sociedades".

“Até que ponto não há uma dramatização excessiva de algo que reflete a necessidade de uma reestruturação social porque os modelos vigentes não estão sendo eficazes? E se essa for a resposta, então é muito positivo o que está acontecendo.”

Helcimara Telles se declarou pessimista em razão do crescimento da extrema-direita em vários países, inclusive no Brasil. Segundo ela, o Conselho Europeu identificou 45 grupos insurgentes na Europa, com três deles sendo de extrema esquerda e 42 de extrema direita. “Esses grupos estão conseguindo mudar a agenda consensual de relações internacionais existentes na Europa”.

Renato Janine Ribeiro abordou a questão do ponto de vista econômico: “Há uma forma de governo ainda presente que é a aristocracia, daqueles considerados mais capacitados, e há setores que realmente dependem de uma expertise, caso dos economistas, que julgam ter as soluções. Um debate importante seria se a economia convive com a democracia”.

Janine afirmou que é possível haver governos não democráticos que suprimam a corrupção, “basta ter um Ministério Público, uma polícia etc., um pouco o desenho que muita gente faz do Brasil atual, onde há instituições coibindo a corrupção de alguns, mas sem ação popular”. Para ele, “é preciso haver uma repulsa popular à corrupção e isso passa pela educação”.

Marcos Gonçalves da Silva frisou que há “um problema de convivência entre democracia e capitalismo”. Citou a advertência do Nobel de economia Amartya Sem de que sempre há uma ameaça do poder corporativo ao bem comum. Daí a necessidade de “sistemas de checagens e balanços, de promover a justiça, de os Poderes se equilibrarem e de as novas ferramentas tecnológicas permitirem o controle popular descentralizado do Estado”.

Álvaro de Vasconcelos não têm dúvidas: “Há uma involução democrática”. Para ele, é mais fácil acontecer o fim da democracia do que do capitalismo: “Há um modelo alternativo à democracia que é chamado de autoritarismo liberal ou liberalismo democrático. São países onde há eleições, como na Rússia e na Turquia, e onde o sistema econômico funciona mais ou menos, mas não se pode dizer que sejam democracias. O caso mais paradigmático é a China, um capitalismo selvagem e não democrático. E muita gente considera que o modelo chinês funciona.”

 

O que fazer quando os cidadãos não se sentem representados no quadro político?

Pedro Dallari - 9-3-17
Pedro Dallari

Para Pedro Dallari, houve uma progressiva ampliação da grade de interação social desde a Segunda Guerra, graças à tecnologia e o acesso a mais informação. No entanto, esse “sistema de relacionamento não consegue dar respostas às demandas de todas as sociedades. Isso gera um quadro de insatisfação e uma das respostas naturais é o refúgio no nacionalismo".

“O que fazer? Criar caminhos via engenharia institucional e educação - não são excludentes - geradores de uma calibragem para que os grupos sociais com sensação de exclusão se sintam integrados ao sistema.”

O caminho, de acordo com Helcimara Telles, é “resgatar o sentido da política e incluir os perdedores da globalização”. Um dos impactos da corrupção “é a percepção bastante negativa da política e um antipartidarismo reativo, com o surgimento de lideranças neopopulistas que se colocam na lacuna de um mundo onde a democracia não é mais uma garantia”.

Ela afirmou que uma hipótese sobre o crescimento da extrema direita na Europa é o fato de ela dizer que “a globalização produziu perdedores e incerteza quanto à possibilidade de os países continuariam a ganhar com a entrada de novos imigrantes e valores”.

Renato Janine Ribeiro ressaltou que houve uma expansão global da democracia de 1980 a 2012, a tal ponto que a maior parte da população mundial passou a viver sob regimes democráticos, “entendidos como aqueles que garantem liberdade de expressão e escolha no plano social - voto, organização - e liberdade de escolha no plano da vida pessoal”.

“Até dois ou três anos atrás, eu diria que prosseguiríamos nessa direção, somando-se a isso a redução da miséria em todo o mundo. Com o Brexit [decisão do Reino Unido de sair da União Europeia], a eleição de Donald Trump e a estranha política no Brasil, passamos a uma situação em que as ameaças à democracia são muito grandes e vejo que a grande interrogação se estamos vivendo uma crise temporária ou se a extrema direita veio para ficar.”

Para a democracia se tornar sustentável, a solução está na creche, segundo Janine: “É entre os 3 e 5 anos que o valor do respeito ao outro pode ser incutido nas crianças”.

A educação é fundamental, mas não resolve o bloqueio político, segundo Álvaro de Vasconcelos, pois “quando as crianças chegam à idade do voto encontram o sistema bloqueado para suas aspirações políticas”.

Para Esther Solano, a esquerda não pode se furtar mais ao debate sobre a corrupção, que “não pode ser um tema só da direita”, e deve dizer que “modelo deseja, colocando em debate a questão da desigualdade, debate do qual também se retirou”.

Ela afirmou que o momento é de transição, aberto a novas iniciativas criativas que “cerceiem a ação corporativa na política, não só na compra de votos e parlamentares, mas também via lobbies”.

Ana Bechara é otimista quanto à postura da sociedade em relação à corrupção, mas frisou que “não adianta ter 2 milhões de assinaturas de apoio à iniciativa popular de combate à corrupção, pois muita gente nem leu as propostas, nem sabe o que assinou”.

Ela também questionou a proposta de teste de integridade moral para funcionário público, a excessiva quantidade de cargos de confiança, os acordos políticos que permitem que alguém possa ser ministro sem conhecer a área e a existência de partidos políticos sem consistência ideológica.

Janine discordou de Ana quanto à necessidade um ministro se especialista no objeto de sua pasta. “Ministro é, com raras exceções, um cargo de natureza política. Eles não entenderam do assunto é normal nas grandes democracias. O que o ministro tem de ter é capacidade política e de liderar uma equipe.”

Marcos Gonçalves da Silva - 9/3/17
Marcos Gonçalves da Silva

Marcos Gonçalves da Silva disse que se observa uma evolução institucional, mas “é preciso controlar o poder das corporações, grande ameaça à democracia e a vários aspectos da vida humana”.

Quanto ao papel da educação, Silva comentou que os especialistas concordam que a principal etapa cognitiva é quando a criança está na creche, período que “deve ser aproveitado para passar a ela valores de cooperação, altruísmo, cidadania e republicanismo”.

Como exemplo bem-sucedido, ele citou pesquisa liderada por Laércio Menezes Filho, da Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade (FEA) da USP e do Insper, em vários municípios: “Na cidade de Sobral (CE), um programa nas creches para prevenção do racismo e o ensino de noções de igualdade e cidadania levou a maior percepção sobre a corrupção quando as crianças se tornaram adolescentes”.

 

O empoderamento do cidadão e o uso das redes sociais favorecem as forças democráticas ou as antidemocráticas?

Ao apresentar esse quarta e última questão aos debatedores, Álvaro de Vasconcelos afirmou que o empoderamento do cidadão é a grande tendência do mundo atual. Alguns dos fatores que levam a isso são, segundo ele, são as novas tecnologias de informação, melhorias na educação, o processo emancipatório das mulheres e a saída da pobreza de grande contingente da população mundial.

“Essa sociedade empoderada tem muito mais exigências, quer se emancipar e afirma através das redes sociais sua vontade de não ser apenas um ator passivo da vida política.”

No entanto, Vasconcelos é cético em relação aos resultados desse empoderamento: “Isso tem sido utilizado com muito mais eficácia pelas correntes que se opõem à democracia”.

Para Renato Janine Ribeiro, o processo de empoderamento dos cidadãos tem se beneficiado da existência de alguns pontos de convergência “entre pessoas com divergências políticas, mas civilizadas”. A necessidade de melhoria da educação do país talvez seja o tema mais consensual, de acordo com ele. “Mas é preciso separar o joio, como a ideologia de gênero e o movimento Escola sem Partido, criados pelos inimigos da educação.”

Sobre a influência da sociedade da informação na cidadania, Janine disse que “nos últimos cinco anos vivemos na sociedade do Facebook, só que há a droga do algoritmo e a pessoa só lê quem concorda com ela. A possibilidade de uma ágora é liquidada, porque além de nossa dificuldade para ouvir o diferente não se tem sequer acesso a ele. Creio que a sociedade da informação está muito aquém das suas possibilidades.”

Para ele, a academia deve pensar em meios para que as discussões não ocorram só entre os próprios acadêmicos: “Temos a responsabilidade de promover uma discussão melhor”.

Helcimara Telles discordou dessa ideia, pois considera que “as pessoas irão procurar os pesquisadores para que eles confirmem preferências prévias”. Ela também é reticente em relação ao papel das redes sociais, que considera “colonizadas e disputadas pelos mesmos grupos, funcionado como uma forma conforto às ideias que eles possuem previamente. E não podemos esquecer que a internet está altamente mercantilizada e que é um espaço corporativo, não é um espaço completamente democrático, aberto, que pode ser gerido pelos cidadãos”.

Helcimara aproveitou a ocasião para falar da desigualdade no Brasil, tema que não fora tratado no debate e diretamente relacionado com as dificuldades de empoderamento e de melhoria da qualidade de vida dos cidadãos. No seu entender, o elevado grau de desigualdade também é promotor da corrupção: “Quanto maior a desigualdade, mais a corrupção é tolerada, inclusive no cotidiano para o indivíduo superar o seu dia a dia de violência. Ele vai dar dinheiro a um policial para não ser morto porque morreu alguém num morro em que ele passou”.

Pedro Dallari é mais otimista em relação aos caminhos da sociedade da informação, “o grande motor de uma perspectiva de melhoria da situação social, econômica e política”.

Ana Bechara - 9/3/17
Ana Bechara

A própria crise (no Brasil e no mundo) é considerada por ele como consequência do empoderamento das pessoas, “menos predispostas em aceitar o status quo, apesar de isso não significar que elas estejam formulando as melhores alternativas”.

Dallari também discorda da avaliação de que faltam lideranças políticas e da necessidade de investir na formação de novos líderes. Acredita que está havendo uma renovação na política e citou como exemplos, independentemente das vinculações partidárias, o prefeito de São Paulo, João Dória, e o ex-prefeito Fernando Haddad.

Em relação à responsabilidade da academia mencionada por Janine, Dallari defendeu que a universidade priorize a reflexão sobre políticas públicas, para intervenções mais pontuais e concretas. Isso é importante, segundo ele, “porque a perspectiva de que haja uma desestruturação por causa da corrupção pode gerar um imobilismo em nossa intervenção concreta na realidade.

Ao contrário de Dallari, Marcos Gonçalves da Silva considera “um certo deslumbre com algo novo" a ideia de que o acesso aos meios da sociedade da informação propicie empoderamento: “É uma tecnologia nova e importante, mas uma tecnologia. Tudo depende de como ela é utilizada. É preciso haver curadoria, que começa na escola, na formação, no ensino das crianças a discernir entre as informações disponíveis, a ter pensamento crítico nas ciências e nas humanidades”.

Ana Bechara concorda com a Silva quanto a avaliação das novas tecnologias como um meio, mas destaca que elas tiveram grande importância em 2013, “com milhões de pessoas comparecendo em manifestações agendadas pela internet”.

Esther Solano também é um pouco cética sobre o potencial das redes sociais: “O empoderamento pode ser um mito, porque depende do modelo em que a pessoa acredita, que pode ser excludente, como o de Donald Trump, ou inclusivo, democrático”.

A preocupação maior dela é com “a falta de empoderamento do campo progressista, que claramente perdeu a batalha e é muito pouco lutador na área institucional”.

Para esclarecer melhor sua ênfase na necessidade de mudanças institucionais, Vasconcelos disse que "a sociedade civil não pode ficar só na militância de base, tem de criar um grande movimento que supere os seus limites e crie condições para que a educação não seja apenas um produto das ONGs como instrumentos de ação política".

“É preciso um movimento nacional e para isso é necessário que surjam políticas alternativas às forças que perderam capacidade de oposição crítica às regras impostas pelas corporações, forças alternativas que não sejam só aquelas da extrema direita", concluiu.

Fotos: Leonor Calasans/IEA-USP