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Invisibilidades do trabalho no setor de serviços são tema do USP Analisa

por Thais Cardoso - publicado 25/05/2017 14:43 - última modificação 25/05/2017 14:43

Docente da UQAM aborda também as consequências da reforma trabalhista para a saúde mental dos profissionais

O trabalho no setor de serviços envolve uma série de dimensões relacionadas ao corpo, às emoções e à própria cognição do profissional que muitas vezes não são levadas em consideração pelos empregadores. Isso provoca uma série de invisibilidades cujas consequências atingem a própria saúde mental do trabalhador. Para abordar esse tema, o USP Analisa desta sexta (26) recebe o professor da Universidade da Quebec em Montreal (UQAM) Angelo Soares.

Segundo ele, essas invisibilidades acontecem porque o modelo utilizado para analisar o trabalho baseia-se na indústria e gera distorções quando aplicado ao setor de serviços. “Hoje, por volta de 70% da população ocupada no Brasil está no setor de serviços. No Canadá, esse número chega a 79%. Essas invisibilidades estão presentes muito mais do que imaginamos em nosso dia a dia. Temos invisibilidades ao nível das competências necessárias para fazer o trabalho, por exemplo, emocionais, relacionadas à utilização do corpo, relacionais. E essas competências geralmente são invisíveis”, diz ele.

Soares analisou alguns tipos de profissões do setor de serviços em suas pesquisas e identificou algumas dessas invisibilidades. “Teve uma enfermeira que me disse: ‘quando o paciente morre, todo mundo se envolve. Ele estava aqui há muito tempo, eu conheço a família, conheço os filhos, os netos. Quando ele morre, eu choro com a família. Mas quando eu saio desse quarto e entro no quarto ao lado, eu abro meu sorriso, porque esse paciente que morreu não precisa mais do meu sorriso, mas esse que está vivo precisa’. Então é uma ginástica emocional muito grande. Esse é um exemplo da competência emocional, da gestão das emoções necessária para fazer o trabalho”.

O docente também criticou as reformas propostas pelo governo brasileiro na área trabalhista, destacando que pode haver precarização e sérias consequências à própria saúde mental do trabalhador. “O governo afirma que essas mudanças vão gerar mais empregos, mas é preciso especificar o tipo de emprego. Podemos criar muitos postos de trabalho sem exigência de qualificação e que causem problemas de saúde. A qualidade é muito importante. Para a sociedade brasileira, será uma catástrofe que, em vez de mil empregos com autonomia e boa saúde mental para os trabalhadores, sejam criados dez mil onde, ao final de um ou dois anos, eles estejam completamente doentes”.

A entrevista vai ao ar nesta sexta (26), a partir das 12h. O USP Analisa é uma produção conjunta da USP FM de Ribeirão Preto (107,9 MHz) e do Instituto de Estudos Avançados Polo Ribeirão Preto (IEA-RP) da USP.