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Livro reúne ensaios sobre a crise hídrica de 2013-2015

por Victor Matioli - publicado 08/08/2018 17:10 - última modificação 10/08/2018 14:09

O Livro Branco da Água, publicado em parceria pelo IEA e a Academia de Ciências do Estado de São Paulo (Aciesp), é resultado de uma série de estudos sobre as causas e consequências do desabastecimento hídrico que limitou o acesso à água de pelo menos 20 milhões de pessoas.

Livro branco da água

O IEA e a Academia de Ciências do Estado de São Paulo (Aciesp) publicaram um livro analítico sobre a crise hídrica que assolou a Região Metropolitana de São Paulo (RMSP) entre 2013 e 2015. O Livro Branco da Água é resultado de uma série de estudos sobre as causas e consequências do desabastecimento hídrico que limitou o acesso à água de pelo menos 20 milhões de pessoas. O trabalho também propõe ações para assegurar o futuro do abastecimento de água na RMSP.

Os artigos que compõem o livro foram escritos por pesquisadores do IEA e convidados, sob a coordenação de Marcos Buckeridge, presidente da Aciesp e coordenador do Programa USP Cidades Globais do IEA, e Wagner Costa Ribeiro, professor da Faculdade de Filosofia, História e Ciências Humanas (FFLCH) da USP e membro do Grupo de Pesquisa Meio Ambiente e Sociedade do IEA.

São 12 capítulos, divididos em três partes: Origens das crises hídricas em São Paulo; Impactos das crises hídricas em São Paulo; e Soluções para o futuro da água. No total, 26 pesquisadores contribuíram para a obra. Veja a lista completa de autores.

Segundo os organizadores, o foco principal do trabalho é “aumentar a resiliência da sociedade que vive na RMSP às crises hídricas que possam existir no futuro”. Eles ressaltam, entretanto, que o livro permite visualizar de maneira organizada os pontos fracos do sistema hídrico da RMSP, favorecendo a produção de soluções cientificamente informadas. “Esta forma de ver, se levada a sério pelo poder público, tem o potencial de evitar situações como a que se apresentou em 2013/2015, quando governantes, empresas e sociedade tiveram que agir de forma apressada para evitar efeitos desastrosos”, garantem.

Buckeridge e Ribeiro destacam que muitos mecanismos contribuem em diferentes graus de importância para que a água da chuva vá para os mananciais, seja tratada e finalmente passe a ser utilizada pela população. Nesse contexto, ressaltam, "todos os subsistemas, maiores ou menores, são importantes e devem ser considerados numa grande equação que tem a função de manter o fornecimento constante, evitando custos desnecessários e a diminuição do bem-estar da população".

Na introdução do livro, os organizadores defendem que, diante de situações como a que se apresentou a partir de 2013, trabalhos como O Livro Branco da Água configuram o melhor modus operandi de uma comunidade científica reflexiva e crítica. Para eles, é necessário “diálogo, respeito e reunião de esforços para buscar entender problemas complexos, cada vez mais presentes no século 21”.

Jean Paul Metzger, professor do Instituto de Biociências (IB) da USP e coordenador do Grupo de Pesquisa Serviços de Ecossistemas do IEA, participou da organização do livro como coordenador temático. Além de redigir a introdução da segunda parte da obra, que trata dos impactos da crise, Metzger foi o responsável por analisar as contribuições de outros 14 especialistas. Para ele, esses textos “destacam as principais evidências sobre as consequências da crise hídrica na RMSP e, ao mesmo tempo, apresentam incertezas e lacunas de conhecimento”.

Em resumo, Metzger aponta que a seca provocou, de acordo com os autores: 1. maior concentração de poluentes na água, além de favorecerem o florescimento de cianobactérias; 2. aumento no custo de diversos produtos, incluindo a própria água, afetando assim a segurança alimentar e hídrica da população; 3. prejuízos em serviços ecossistêmicos, como os relacionados à produção alimentar e de madeira, e os serviços culturais de lazer que dependem direta ou indiretamente de corpos d’água ou da chuva; 4. impacto, de forma indireta e em longo prazo, nos ambientes terrestres, podendo levar a um ressecamento das matas com consequente aumento no risco de queimadas e na perda das espécies que requerem microclima mais úmido ou mais sombreado; e 5. agravamento de importantes problemas de saúde pública devido à maior concentração de contaminantes químicos e orgânicos nas águas e maior risco de proliferação de cianobactérias, o que eleva os riscos e os efeitos de diarreia, assim como a incidência de câncer e de outros problemas no desenvolvimento e na reprodução humana.

O prefácio do livro foi redigido por Léo Heller, relator especial da Organização das Nações Unidas (ONU) para o Direito Humano à Água e ao Esgotamento Sanitário. Ele endossa o papel questionador da obra e avalia que "o livro confirma que a crise teve pouco de 'hídrica' e muito de 'humana', pois 'estiagem' – um conceito hidrológico e pouco evitável com ações locais – não deveria se converter em “escassez no acesso” – um conceito com fortes implicações sociais". Ele lembra que entre a estiagem e a escassez operam homens e mulheres, que têm a capacidade de moldar o aparato técnico para abastecimento de água.

A gestão da crise também é o ponto central do texto de João Paulo Ribeiro Capobianco, vice-presidente do Instituto Democracia e Sustentabilidade (IDS), que escreveu a apresentação do livro. “Sem contrapontos, as decisões do governo estadual ante a situação mostraram-se fortemente pautadas por uma gestão centralizada e tecnocrata, que priorizou investimentos em obras para captação e transporte de água", escreve.

E ressalta: "Quando o volume de chuvas permitiu a recuperação parcial dos níveis dos reservatórios, os órgãos oficiais rapidamente consideraram a crise superada, desarticularam os processos de participação social em curso e interromperam o sistema de bônus por economia e multas por aumento de uso da água, que permitira uma grande redução do consumo e colocara os cidadãos paulistanos no centro da discussão para a busca de soluções para esse grande desafio. Houve, portanto, uma desconstrução do problema da escassez hídrica, como se ele estivesse definitivamente superado, com a consequente desmobilização da sociedade”.

O “livro branco” ou white paper é um documento oficial produzido por governos ou instituições que compila políticas ou orientações para a solução de um determinado problema.

Lista de autores

Marcos Buckeridge

Wagner Costa Ribeiro

Jean Paul Metzger

Laís Fajersztajn

Paulo Saldiva

Guilherme Ary Plonski

Tercio Ambrizzi

Caio A. S. Coelho

José Galizia Tundisi

Pedro F. Develey

Rodrigo Antonio Braga Moraes Victor

Elaine Aparecida Rodrigues

Bely Clemente Camacho Pires

Edgar Fernando de Luca

Nathalie Gravel

Yara Maria Chagas de Carvalho

Paulo A. de A. Sinisgalli

Ana Paula Fracalanza

Leandro Luiz Giatti

Natalia Dias Tadeu

Pedro Roberto Jacobi

Vanessa Empinotti

Edson Grandisoli

Ricardo Hirata

José R. Carvalheiro

Marcio Miguel Automare