Você está aqui: Página Inicial / NOTÍCIAS / Propostas e ações para o combate à desnutrição

Propostas e ações para o combate à desnutrição

Novo grupo de estudos reunirá pesquisadores de várias áreas para a elaboração de contribuições às políticas públicas de nutrição.

Analisar políticas e programas de combate à desnutrição e congregar pesquisadores e professores universitários atuantes nesse setor são os objetivos principais do Grupo de Estudos em Nutrição e Pobreza, recém-criado no IEA. O trabalho será desenvolvido por meio de discussões periódicas e eventos com pesquisadores e representantes governamentais e da sociedade civil, do Brasil e do Exterior. O grupo também pretende elaborar e publicar estudos e pleitear junto a fontes nacionais e internacionais recursos para intervenções-piloto na área de nutrição e combate a pobreza. As diretrizes conceituais do grupo foram expostas no dia 27 de junho na conferência "Fome e Desnutrição no Brasil", da fisiologista Ana Lydia Sawaya, da Unifesp e coordenadora do grupo. Em entrevista à Assessoria de Imprensa do IEA, a pesquisador falou sobre o quadro atual da desnutrição no Brasil e as motivações que levaram à criação do grupo no Instituto.

sawaya.jpg
Ana Lydia Sawaya, coordenadora do grupo de estudos: "A quantidade de crianças desnutridas está aumentando nas favelas"

Sawaya comenta que muitos pesquisadores de diversas áreas e instituições trabalham já há vários anos com as questões ligadas a nutrição, desnutrição e fome, “com muita coisa de boa qualidade sendo produzida mas pouco reconhecida no país”. A existência dessa massa crítica mais a experiência de 10 anos do Centro de Recuperação e Educação Nutricional (Cren) da Unifesp motivaram a organização do grupo no IEA, com a participação de pesquisadores de nutrição, economia, educação (nutricional e popular), fisiologia e outras áreas.

INFECÇÕES
A pesquisadora ressalta que desnutrição é diferente de fome: “A desnutrição é sempre a baixa quantidade ou qualidade de alimentos associada a uma freqüência alta de infecções; fome é não ter quantidade adequada de alimentos”. No caso brasileiro, é reduzido o percentual (2% no interior do Nordeste) de crianças que morrem de fome, segundo Sawaya. "Embora a taxa de mortalidade infantil esteja caindo, as crianças dos bolsões de pobreza do país continuam a morrer de parasitoses, verminoses, diarréias, desidratação, pneumonia e outras infecções."

A coordenadora do grupo destaca que o mais apropriado é chamar a desnutrição de síndrome multifatorial, pois para se recuperar uma criança desnutrida não basta dar alimentos, é preciso tratar das infecções e da família, muitas vezes inclusive com intervenções de assistentes sociais e psicólogos. É necessário também propiciar alguma qualificação profissional aos adultos e sua inserção no mercado de trabalho.

FAVELAS
Sawaya conta que quando foi trabalhar na Unifesp há mais de 10 anos tomou conhecimento de várias pesquisas realizadas com populações de favelas e bolsões de pobreza na cidade de São Paulo. Os trabalhos relatavam que as famílias mais pobres e com mais problemas de saúde tinham menos acesso ou recorriam menos aos serviços de saúde. “Diante desse fato, montamos um sistema de busca ativa nas favelas da região da Vila Mariana, fizemos censos antropométricos em todas elas e encontramos uma prevalência [percentual de casos numa determinada população] de desnutrição 3 a 4 vezes mais elevada do que a média nacional.”


Em seguida, os pesquisadores da Unifesp resolveram adotar as recomendações da Organização Mundial da Saúde para o tratamento efetivo da desnutrição, com a recuperação de peso e estatura. “Queríamos que a criança se recuperasse totalmente, não só como acontece no hospital, onde ela chega doente, se recupera do quadro agudo e volta para casa, retornando depois novamente ao hospital justamente por não ter alimentação adequada.” Foi dessa forma que o Cren passou a ser um centro de referência para o tratamento de desnutrição e de difusão de conhecimentos sobre o problema.

OBESIDADE
Em relação à desnutrição em adultos, Sawaya informa que há vários estudos internacionais sobre o conceito de insegurança alimentar, o mesmo adotado do ponto de vista conceitual pelo Programa Fome Zero do governo federal. De acordo com essa definição, insegurança alimentar significa que uma pessoa não tem dinheiro para comprar a quantidade de alimentos que precisa durante todo o mês e passa uma certa fome relativa, não absoluta (“fome absoluta só em casos como guerra, seca e outras situações onde há realmente indisponibilidade de alimentos”).

Ela comenta que essa situação também acontece com algumas populações dos EUA, que acabam recebendo tíquetes de alimentação. Descobriu-se que um número considerável de pessoas nessa situação nos EUA sofre de obesidade, além de diabetes, hipertensão e doenças coronarianas. Ou seja, a insegurança alimentar ou fome relativa, no caso do adulto em muitos casos provoca obesidade. Isso acontece porque o organismo reconhece que não há sempre alimentação suficiente e procurar fazer reservas, aumentando a concentração de gordura, sobretudo a pior delas, na barriga, que está associada ao desenvolvimento de diabetes, hipertensão e doenças coronarianas.

ZONA RURAL
A prevalência de desnutrição na zona rural é maior do que nos centros urbanos devido à falta de serviços médicos e às precárias condições de saneamento. Por isso uma família vinda do sertão nordestino, por exemplo, e moradora de favela em São Paulo sempre vai dizer que prefere morar na favela aqui em vez de no sertão, pois lá passa mais fome. Aqui ela terá alguém a quem recorrer e lá não. Esse é o motivo de a migração rural para favelas continuar em crescimento (em São Paulo esse crescimento é superior à taxa de crescimento geral da população da cidade). A conseqüência mais dramática desse quadro, associado a outros como o desemprego, é que a há cada vez mais crianças desnutridas nas favelas e de forma muito mais grave, de acordo com os levantamentos feitos pelo Cren.

Sawaya destaca que o grupo de estudos no IEA está começando tendo por base os estudos e atividades Cren, mas ela espera que outros grupos e organizações não-governamentais voltados para a questão da desnutrição infantil se integrem ao trabalhos. Um dos projetos a serem desenvolvidos terá o apoio da Unicef e envolverá o Cren e experiências de mais três países. Nele, crianças desnutridas receberão alimentos e terão seu desenvolvimento físico monitorado.

Experiência de centro motivou criação do grupo

Vinculado à Equipe Interdisciplinar de Pesquisa em Política Científica e Tecnológica do IEA e coordenado pela professora Ana Lydia Sawaya, chefe do Departamento de Fisiologia da Unifesp e presidente do Núcleo Salus Paulista, organização não-governamental mantenedora do Centro de Recuperação e Educação Nutricional (Cren), ligado à Unifesp, o Grupo de Estudos em Nutrição e Pobreza conta em seu núcleo inicial com a participação dos professores Ulisses Fagundes Neto, chefe do Departamento de Pediatria e vice-reitor da Unifesp; Luis Gaj, da Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade da USP; Sandra Maria Sawaya, da Faculdade de Educação da USP; Dalton Ramos, da Faculdade de Odontologia da USP; Semiramis Martins Alvares Domene, da Faculdade de Nutrição da PUC de Campinas; e Rui Curi, do Instituto de Ciências Biomédicas da USP.

A proposta de criação do grupo surgiu da experiência adquirida pelo Cren. O centro atende crianças desnutridas de até 6 anos e suas famílias, em semi-internato (hospital-dia), ambulatório e na comunidade. E centro foi inaugurado em 1994, fruto do trabalho realizado por profissionais da área de saúde e nutrição da Unifesp em favelas da região da Vila Mariana, bairro de São Paulo onde se localiza a universidade. Além do atendimento especializado à criança, o método do Cren de combate à desnutrição prevê atividades junto às famílias e à comunidade, com visitas domiciliares, oficinas de trabalho, capacitação profissional, educação nutricional, desenvolvimento de um programa de prevenção e combate à desnutrição em creches, cursos para agentes comunitários e para profissionais do Programa de Saúde da Família.

Para mais informações sobre o Cren consulte o site www.cren.org.br.

Foto: Unifesp