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Revolução dos Cravos e União Europeia influenciaram desenvolvimento em Portugal

por Vinícius Sayão - publicado 12/09/2017 13:55 - última modificação 12/09/2017 14:51

A falta de incentivo aos estudos, a alta taxa de analfabetismo e o isolamento do país na época ditatorial atrasaram o desenvolvimento cultural e o alinhamento português ao resto do continente europeu
Helena dos Santos - 01
Helena dos Santos: "Foi uma ditadura muito forte. Não se incentivava que se estudasse, que se pensasse"

Portugal vive uma democracia há 40 anos, no entanto, sua cultura ainda tem reflexos do tempo da ditadura – que durou mais do que o atual período democrático, 48 anos. A falta de incentivo aos estudos, a alta taxa de analfabetismo e o isolamento do país na época ditatorial atrasaram o desenvolvimento cultural e o alinhamento português ao resto do continente europeu. As conclusões são da socióloga Helena dos Santos, docente na Faculdade de Economia da Universidade do Porto. Ela participou da conferência Culturas, Políticas e o Digital: Contextos e Interrogações a partir de Portugal, realizado no IEA no último dia 4 de setembro e organizada pelo Grupo de Estudos Humanidades Computacionais.

Vigente de 1926 a 1974, a ditadura em Portugal só teve fim com a Revolução dos Cravos, também chamada de Revolução de 25 de Abril. "Foi uma ditadura muito forte. Não se incentivava que se estudasse, que se pensasse. Em 74, uma enorme porcentagem da população era de analfabetos, de gente que nunca tinha ido à escola. Apenas 5% a 6% das pessoas tinha feito o ensino superior”, comentou Helena.

Não à toa, lembrou, o ditador António Oliveira Salazar, presidente do Conselho de Ministros durante quase todo o período ditatorial, dizia que “era preciso começar a ensinar o povo a ler e escrever, mas com cuidado, não muito”.

Foi só após a Revolução dos Cravos, que a cultura e as artes passaram a ter uma importância maior. O motivo, segundo Helena, é que artistas que estavam exilados puderam retornar ao país. Além deles, muitos jovens das classes média e alta também regressaram. A socióloga nota que, durante a ditadura, algumas pessoas que tinham qualificação escolar e poderiam estudar mais eram recrutadas quando chegavam perto dos 20 anos de idade, o que fazia com que muitos fugissem do país.

Além disso, antes de 74, Portugal vivia sob a política de “orgulhosamente sós” (frase também de Salazar), o que provocou um distanciamento muito grande dos outros países, principalmente da Europa. Já após a Revolução, o discurso político mudou: "A projeção de Portugal não foi mais feita para o mar, como sempre foi historicamente, mas para dentro do continente europeu. em um discurso político que dizia basicamente 'ou nos modernizamos (com a Europa), ou nunca vamos conseguir nos afirmar", explicou Helena.

O atraso em relação ao resto do continente era evidente. A criação de um Ministério da Cultura foi feito apenas em 1995, enquanto a França, por exemplo, já possuía um desde 1959. O Ministério, surgido em uma década na qual já se percebia a globalização e o domínio financeiro pelos avanços tecnológicos, era uma tentativa do país de equilibrar o que seria o lado do mercado para a cultura e o que seria apoiado, sobretudo financeiramente, pelo setor público. “O Ministério da Cultura aparece para clarificar uma já visível tendência europeia, a mercantilização da cultura. O discurso oficial era que nem tudo do país podia ser deixado ao mercado.”

A socióloga explicou que apesar do orçamento muito curto, o financiamento possibilitou a “infraestruturação” da cultura, que era, de fato, a linha da política da União Europeia: criar instrumentos para fazer surgir um mercado digital, valorizar o digital, o informacional e o trabalho em rede. “A criação de uma infraestrutura de museus, bibliotecas e redes de leitura são, ainda hoje, um passo de sucesso, que permitiu construí-los onde não existiam, além de um esforço de criação de uso de novas tecnologias – o digital – para que essas instituições trabalhassem em rede”.

Mesmo com certo sucesso, o Ministério da Cultura português não durou muito: foi encerrado em 2011, devido aos impactos da crise econômica de 2008. “Foi um daqueles ministérios onde sucessivamente os ministros entravam e saíam”, disse Helena. Até 2015, quando foi reativado, o país não teve sequer uma Secretaria de Cultura, possuindo apenas um Secretário de Estado, diretamente dependente do primeiro-ministro.

Helena comenta que Portugal teve sucesso na criação de infraestrutura da cultura, como, por exemplo, a digitalização do cinema, mas falhou no processo de descentralização. “A cultura e as artes têm que ser capazes, do ponto de vista da criação, de fazer algumas pontes e o digital permite isso. O digital permite que pensemos de outra maneira, em outra escala, com menos fronteiras”, disse.

Foto: Leonor Calasans / IEA-USP