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Teixeira Coelho: pensamento e a ação em favor das políticas culturais

por Mauro Bellesa - publicado 06/06/2022 13:15 - última modificação 07/06/2022 10:09

A morte do professor, dirigente cultural, curador e ensaísta José Teixeira Coelho Netto, ocorrida em 4 de junho de 2022. Ele era professor sênior do IEA e professor emérito da Escola de Comunicações e Artes (ECA) da USP.

José Teixeira Coelho Netto - evento no IEA
Teixeira Coelho em uma das atividades do Grupo do Estudos Culturas Humanidades Computacionais do IEA, do qual era coordenador

Num momento em que a cultura nacional sofre com o corte de verbas, desmonte de instituições e descontinuidades de políticas, quadro agravado pelas consequências da pandemia, a morte do professor, dirigente cultural, curador e crítico de arte José Teixeira Coelho Netto, no dia 4 de junho, representa um lamentável percalço para a definição de caminhos para o setor, além de uma lacuna irreparável para a reflexão sobre a arte e a cultura.

Em entrevista a Roberto C. G. Castro, do Jornal da USP, o ex-diretor do IEA Martin Grossmann, amigo e colaborador de Teixeira Coelho, definiu-o como "um pensador da cultura extremamente original".

Para Grossmann, essa originalidade pode ser constatada nas ideias sobre cultura apresentadas por Teixeira Coelho nos 44 livros que publicou ao longo de mais de 50 anos de atividade acadêmica, desenvolvida em grande parte na Escola de Comunicações Artes (ECA), na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH), ambas da USP, e na Universidade de Maryland, nos EUA.

Professor emérito da ECA-USP, Teixeira Coelho era professor sênior do IEA, onde coordenava o Grupo de Estudos Culturas e Humanidades Computacionais do IEA, especialista em política cultural e colaborador da Cátedra Unesco de Política Cultural da Universidade de Girona, Espanha, e coordenador do curso de especialização em gestão e política cultural do Observatório Itaú Cultural. Recentemente fora escolhido para ser um dos coordenadores, ao lado de Grossmann, do eixo Cultura e Artes do Programa Eixos Temáticos da USP, instituído pela Assessoria do Gabinete do Reitor da USP.

A criação do grupo de estudos em 2015 no IEA demonstra o grau de inquietação intelectual e o acompanhamento pari passu de Teixeira Coelho das transformações culturais ao longo de sua carreira. O trabalho era voltado para discussão da realidade contemporânea das culturas computacionais e digitais e da produção cultural, mediada ou autoproduzida, afirmava, num contexto em que o trabalho de robôs substituiu o trabalho manual dos humanos e caminha para substituir, por meio da inteligência artificial, o trabalho intelectual.

A última participação de Teixeira Coelho no IEA foi a participação como debatedor no seminário organizado sobre o grupo em 23 de março sobre o Futuro das Humanidades na Era Digital, com participação de Nicolas Shumway, da Universidade Rice, EUA.

Novo público da cultura

Uma das obras do pensador destacadas por Grossmann na entrevista é "O Que é Ação Cultural" (1989), um trabalho fundamental sobre questões que começavam a ser discutidas na Europa sobre usuário da cultura não como apenas mero consumidor, mas também como produtor.  “Ele mostrou que, na arte pós-moderna, a audiência não é passiva, e sim atuante, partícipe do fazer cultural, o que exige dela inteligência e crítica. Não havia reflexão no Brasil sobre isso.”

A concepção de políticas culturais foi preocupação permanente de Teixeira Coelho. Nos anos 80, fundou e coordenou o primeiro núcleo destinado a esse fim no país, o Observatório de Políticas Culturais da ECA-USP. Um dos trabalhos desenvolvidos foi o "Dicionário Crítico de Políticas Culturais" (1997), com traduções lançadas no México e na Espanha. Grossmann enfatizou que a obra estabeleceu o vocabulário necessário para verbalizar a ação cultural em paralelo ao trabalho do observatório na formação de gerações de agentes culturais.

Gestão cultural

Ele ressaltou ainda a atuação de Teixeira Coelho como gestor cultural. Entre 1998 e 2002, ele dirigiu o Museu de Arte Contemporânea (MAC) da USP com “planos audaciosos” para torná-lo mais conhecido do público e, como curador-coordenador do Museu de Arte de São Paulo (Masp), de 2006 a 2014, foi um dos responsáveis pela recuperação da instituição ao mudar o padrão da gestão, segundo o Grossmann.

A vice-reitora da USP, Maria Arminda do Nascimento Arruda, também falando ao Jornal da USP, classificou Teixeira Coelho como um dos mais importantes pensadores da cultura do Brasil, pioneiro em estudos sobre os meios de comunicação e, depois, nas áreas da crítica de arte e da curadoria, afirmou. Ela lembrou também a contribuição de Teixeira Coelho para os institutos culturais no País, como o Itaú Cultural, em São Paulo, onde deu conferências, organizou eventos e editou publicações: “Ele fez uma reflexão filosófica muito significativa sobre as possibilidades artísticas dos novos meios de informação, as relações entre arte e tecnologia e todo o andamento da cultura na pós-modernidade.”

Além de ter lecionado na ECA-USP desde 1973, onde se aposentou como professor titular, Teixeira Coelho foi professor de teoria da informação e percepção estética e de história da arte da Faculdade de Arquitetura da Universidade Presbiteriana Mackenzie e diretor do Departamento de Informação e Educação Artística (Idart) da Secretaria de Cultura do Estado de São Paulo.

Outras duas atividades de destaque de sua atuação profissional foram a curadoria de exposições no Brasil e no exterior, como a Bienal de Curitiba (PR) de 2015, e a carreira de ficcionista. Seu romance "História Natural da Ditadura" (2006) venceu o Prêmio Portugal Telecom 2007.

Teixeira Coelho morreu em consequência de complicações de resultantes de uma mielodisplasia diagnosticada em outubro passado. Ele deixou uma filha e um neto.

Foto: Leonor Calasans/IEA-USP