Ensino Fundamental 2: uma etapa quase esquecida

por Nelson Niero Neto - publicado 01/08/2019 18:05 - última modificação 20/08/2019 15:00

Os anos finais desse segmento se tornaram uma fase sobre a qual se fala pouco, que recebe poucas políticas e com estudantes fragilmente acompanhados pelos professores
Pontos-chave
  1. Os anos finais do Ensino Fundamental se tornaram uma etapa invisibilizada pelas políticas públicas e pesquisas, que se dedicam mais fortemente ao estudo dos anos iniciais e do Ensino Médio.
  2. Há desafios importantes a serem enfrentados nessa etapa, sobretudo para combater a reprovação, a distorção idade-série e a evasão (estas duas em consequência da primeira).
  3. Estudos com alunos e professores mostram que a transição é um ponto de atenção, assim como a incompreensão dos professores sobre a faixa etária e a falta de sentido do conteúdo escolar para a vida dos estudantes.

Por Rodrigo Ratier e equipe

Em uma ponta, a dificuldade de incluir crianças na Educação Infantil e garantir que sejam alfabetizadas logo no início do Ensino Fundamental. Na outra, a dificuldade de reter na escola adolescentes que não veem sentido no que aprendem no Ensino Médio. Preso entre esses dois pontos, está o quase sempre esquecido Ensino Fundamental 2. "São como filhos do meio", definiu uma ex-servidora do Ministério da Educação (MEC) durante uma pesquisa que foi apresentada pela pesquisadora Gisela Tartuce na palestra "Panorama de Projetos Relativos aos Anos Finais do Ensino Fundamental", parte do terceiro encontro do Ciclo Ação e Formação do Professor, organizado pela Cátedra de Educação Básica da USP.

A pesquisadora apresentou o resultado de alguns estudos e pesquisas realizados sobre esse segmento e reforçou o impacto da formação deficitária dos professores para os altos índices de reprovação e evasão nele. "Os professores mostram reconhecimento dos próprios limites pra dar conta das novas demandas nesse atual momento de maior complexidade na carreira docente", afirma a pesquisadora.

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O segmento carece de uma identidade própria, segundo demonstrou a pesquisa "Anos Finais do Ensino Fundamental: Aproximando-se da Configuração Atual", realizada pela Fundação Carlos Chagas em 2010. Isso se dá pela inclusão dele, na Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional, como parte do Ensino Fundamental. "Isso não é um problema, ao contrário, garantiu a obrigatoriedade do aluno de cursar até os 14 anos quando o Ensino Médio ainda não era obrigatório. Mas isso faz com que alguns aspectos dos anos finais sejam invisibilizados", fala Tartuce.

O desafio de manter jovens na escola

Dados recolhidos do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep), entidade ligada ao MEC, ajudam a compreender um pouco alguns dos desafios enfrentados nessa etapa. Desde 2014, houve uma diminuição em mais de um 1 milhão no número de matrículas no Ensino Fundamental e que é mais intensa nos anos finais dele. "Isso nos levaria a pensar que seriam a evasão a responsável por essa queda", afirma Tartuce.

Pergunta da plateia

O que fazer com estudantes que não querem estudar ou participar das aulas?

A motivação dos estudantes está diretamente relacionada com o sentido que ele enxerga no que lhe é ensinado. "Dizem que os alunos são desinteressados. Eu nunca tive um aluno desinteressado. Tenho muitos alunos desinteressados naquilo que eu estou falando. Mas eles estão interessados em outras coisas", afirma Nilson José Machado. O caminho é encontrar os centros de interesse dos estudantes e ligá-los aos conhecimentos que precisam ser ensinados na escola. Para fazer isso, é necessário mergulhar na descoberta sobre os estudantes, os desafios da faixa etária e às bagagens trazidas por eles antes de entrarem na sala. de aula. "Os professores têm o desconhecimento do público que ele recebe. Não só de como ele aprende, mas de uma maneira geral. Esse desconhecimento muitas vezes se transforma num estereótipo do tipo 'eles não estão interessados', 'eles são bagunceiros', diz Gisela Tartuce.

O principal motivador do abandono, segundo as estatísticas oficiais, parece ser justamente o alto índice de repetência que, apesar de menor, ainda é alto: 10% dos estudantes foram retidos em 2014, em comparação a 15% em 2010. Nos anos iniciais, esse valor é de 5%. "E a reprovação é mais intensa nos anos de transição, como o sexto ano", diz a pesquisadora. Como resultado, também há uma grande distorção idade-série: 20% dos alunos do Fundamental 2 não estão na série adequada para a sua idade. "Isso causa a desmotivação e, muitas vezes, faz com que ele saia da escola", diz.

Apesar dos índices preocupantes, há poucas políticas públicas voltadas para esse segmento. Segundo a pesquisadora, um levantamento de 2014 mostrou apenas dois grandes programas do governo federal voltados a ele ambos com o foco na formação de professores. Nas secretarias estaduais, a maior parte dos programas tinha como foco o reforço escolar, sobretudo no 6º ano. "A repetência é muito alta. Isso é algo que os estados já sabem e tentam combater com esses programas", afirma a pesquisadora.

Desafios da transição

Entrevistas com estudantes e professores mostram que a passagem da primeira para a segunda parte do Fundamental costuma ser difícil para as crianças. Essa é uma fase na qual os estudantes enfrentam diversas transformações, tanto dentro quanto fora da escola. No âmbito estudantil, passam a ter mais professores, têm exigências mais intensas e há uma menor aproximação dos familiares com a escola. Na vida pessoal, encaram transformações corporais e começam a desenhar novas relações, formam novos grupos de amigos e buscam a construção da sua identidade. "Talvez seja o momento em que na escola haja a maior diferenciação entre idades. Um menino de doze anos é muito diferente de um menino de catorze. E também intra-idades: dentro de uma mesma sala, muitas vezes, se encontram níveis de desenvolvimento muito diferenciados", comenta.

Em um contexto tão complexo, muitos educadores não se sentem preparados. Uma das falas apresentadas por Tarluce, feita por uma professora do segmento, diz: "Nós precisamos de ajuda. Não há um problema de aprendizagem, é de ensino. Ou seja, somos nós que não sabemos mais como ensinar."

Na outra ponta da relação, os estudantes também sentem os impactos do desconhecimento dos professores sobre as especificidades desse segmento. Muitos dos docentes lançam olhares negativos sobre os estudantes, caracterizando-os como imaturos, bagunceiros e despreparados para a etapa. "Na quinta série (agora sexto ano), tinham professores que mal começaram o ano, tratavam a gente como adolescentes. Não lembravam que acabei de vir da quarta série (agora quinto ano). Começavam: você não é mais criança", afirmou uma das crianças entrevistadas durante um estudo.

Em busca do sentido da escola

A maneira como os conteúdos são apresentados também é um grande dificuldade do segmento. Em comparação com o Ensino Fundamental 1, em que há a presença de professores, polivalentes que, muitas vezes, tecem relações entre as diferentes disciplinas, a fragmentação é maior justamente porque há docentes especialistas para cada disciplina.

Quem é Gisela Tartuce

Possui graduação em Ciências Sociais pela Universidade de São Paulo (1996), mestrado (2002) e doutorado (2007) em Sociologia pela mesma Instituição. É pesquisadora da Fundação Carlos Chagas (FCC) desde 1997. É editora executiva de Cadernos de Pesquisa, revista de estudos e pesquisas em educação da FCC.

Além disso, há uma impressão de que o conteúdo é mais complexo. "Eles (os professores) podiam explicar como funciona a matemática. Da 1ª a 4ª, é só continha de mais, vezes e dividir. Quando chega na 5ª, só é coisa forte. Eles podiam explicar como funciona cada matéria, dizer: Vou começar com isto, se faz deste jeito. E não começar a atacar na lousa", afirmou um estudante em entrevista. "Muitas vezes, a falta de sentido não é só para o estudante, mas também para o professor", destaca a pesquisadora Gisela Tartuce. "Os alunos veem o corpo docente como modelos e aqueles que conseguem ter estratégias diferenciadas são bem valorizados e reconhecidos pelos estudantes", diz.

Apesar de alguns estudos ajudarem a desenhar um rascunho das impressões sobre o segmento, a etapa ainda precisa ser mais estudada. Por isso, a Fundação Itaú Social estabeleceu uma parceria com a Fundação Carlos Chagas e lançou um edital para financiar pesquisas sobre o segmento. Catorze iniciativas foram selecionadas e serão desenvolvidas a partir desde ano. "Espera-se que as propostas selecionadas tragam possíveis recomendações para que haja um enfrentamento dos desafios desse segmento", destaca Tartuce.