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A autorrepresentação da periferia no cinema e na fotografia

por Mauro Bellesa - publicado 30/11/2018 11:25 - última modificação 05/12/2018 09:48

Realizado no dia 26 de novembro, o encontro "Quando as Periferias Constroem sua Própria Imagem", integrante do Ciclo Centralidades Periféricas, tratou da produção cinematográfica e fotográfica em comunidades de baixa renda. O ciclo é uma iniciativa da Cátedra Olavo Setubal de Arte, Cultural e Ciência.
Ivana Bentes, Bira Carvalho, João Roberto Ripper, Eliana Souza Silva, Thaís Scabio e Marcus Faustini
Encontro discutiu produção em fotografia e cinema das e sobre as periferias e como elas influenciam a cultura urbana brasileira

Se a dura realidade da vida nas periferias do país não admite há muito tempo a romantização presente na sua representação pelo cinema e outras artes até meados do século 20, seus moradores também não aceitam mais a visão preconceituosa que os identifica quase que exclusivamente com a violência, a criminalidade e outras mazelas sociais.

O desejo de se verem representados em sua subjetividade, diversidade, afetos e espírito comunitário - sem mascarar as contradições, injustiças e violência - fez surgir a partir dos anos 2000 um movimento inédito de produção cinematográfica e fotográfica no qual a periferia se autorrepresenta para si e para o resto da sociedade.

No dia 27 de novembro, o quarto encontro do ciclo Centralidades Periféricas, realização da Cátedra Olavo Setubal de Arte, Cultura e Ciência, tratou exatamente dessa produção. Sob o título Quando as Periferias Constroem sua Própria Imagem, o evento teve como expositores os fotógrafos Bira CarvalhoJoão Roberto Ripper, os cineastas Marcus Faustini e Thais Scabio e a professora Ivana Bentes, da Escola de Comunicação da UFRJ. A moderação foi de Eliana Sousa Silva, titular da cátedra.

Bira Carvalho
Bira Carvalho

Afetos

Morador da favela Nova Holanda, no Complexo da Maré, no Rio de Janeiro, Bira Carvalho disse que antes de começar a se dedicar à fotografia, acabou assimilando que a favela não era tão bonita quanto se falava, mas sim “um espaço de violência, não violentada”.

Para ele, as favelas sempre produziram cultura: “Elas sempre contribuíram com a cidade ao produzir samba, hip hop e outras manifestações. O Rio de Janeiro seria uma cidade horrorosa e chata sem as favelas.”

Ele chegou a parar de fotografar durante três anos. Tinha perdido a mãe, a irmã e o irmão num período de um ano. Além disso, questionava seu papel: "Será que sou mais um cafetão de favela?’". Durante uma ocupação policial do Complexo da Maré, ele foi chamado por Eliana, atual titular da cátedra, para fotografar o que estava acontecendo e retomou a atividade.

"Os políticos tendem a falar pela mídia que a favela é violenta. Resolvi falar do afeto. O ato de se cuidar e cuidar dos outros não é ativismo, é o ato diário na favela.” Por ser “rueiro”, Carvalho tem contato intenso com os grupos locais. Isso lhe permite identificar percepções diferentes sobre um mesmo espaço, afirmou.

Para ele, há muito o que a periferia compartilhar com a universidade. “Fico feliz com essa aproximação. Vai haver um grande ganho, principalmente para a universidade. As favelas estão produzindo conhecimento. Mais do que fotografia e cinema, estão produzindo doutores filhos de empregadas domésticas.”

Thais Scabio
Thaís Scabio

Personagens

Thais Scabio descreveu sua trajetória de aprendizado e profissional desde 2000, iniciada numa oficina em Diadema, na Grande São Paulo. Na mesma cidade, em 2006, fundou, em parceria com Gilberto Caetano, a produtora Cavalo Marinho Audiovisual, que atua em associação com vários coletivos surgidos na região a partir de políticas públicas.

Para montar a produtora, ambos deixaram os empregos e com os recursos recebidos, mas um pequeno prêmio recebido, compraram um computador e o colocaram numa mesa improvisada na casa de Thais. Começaram a trabalhar editando filmagens de outras pessoas.

A produção da periferia é similar, em alguns aspectos, ao cinema neorrealista italiano do pós guerra, disse. “Na periferia, o que importa são as pessoas e suas histórias. A gente traz muito a questão das personagens existentes na comunidade, mas também uma forma de denúncia. Não tem como ser da quebrada e não falar de racismo e violência.”

Thais falou também dos filmes feitos pela produtora, da parceria com o Jamac (Jardim Miriam Arte Clube), que resulta em oficinas de cinema e arte digital e um prêmio de incentivo a produtores locais, e da atuação do Sarau Cinematográfico Mascote Clube, que promove exibições em vários bairros da região de Cidade Ademar/Pedreira, na Zona Sul paulistana.

Marcus Faustini
Marcus Faustini

Territórios

Para Marcus Faustini, em vez de aprisionar a periferia, é preciso dar condições para que ela crie e brote com suas contradições e diversidade. “Precisamos viver a liberdade da periferia, assim como já houve a liberdade das classes médias, dos intelectuais. Os doutores surgidos a partir das cotas de ingresso na universidade tem de ter as mesmas condições de produzir que os outros."

No entanto, ele considera que é preciso deixar de pensar nas comunidades da periferia como linguagem e olhá-las como territórios. “Um jovem da Rocinha tem necessidades diferentes daquelas de um de Santa Cruz [Zona Oeste da cidade do Rio de Janeiro], que precisa de melhores condições de mobilidade.”

Nascido em Santa Cruz, Faustini conseguiu agora, aos 47 anos, lançar seu primeiro filme de ficção, “Vende-se Esta Moto”. Essa demora para produzir um filme de ficção com um custo de R$ 80 mil “se chama desigualdade”, segundo ele.

Faustini avalia que haverá novas formas de expressão vindas da periferia. “Os jovens de 13 a 17 anos de hoje tem outra sensibilidade, é uma geração mais reflexiva e mais doce, não é mais de enfrentamento como as anteriores."

Mídia

João Roberto Ripper
João Roberto Ripper

"Se a humanidade existe por causa da beleza e da aproximação das pessoas, por que a beleza é retirada das notícias sobre as populações mais pobres? Retira-se a beleza e se mostra a favela só pela violência. Isso acaba transformando as pessoas do local em potenciais criminosos.” A perversidade dessa distorção foi um dos aspectos principais tratados por João Roberto Ripper.

Para ele, “a grande mídia hegemônica só conta as histórias que interessam a grupos da elite e ao poder econômico”. O crescimento das iniciativas de produção de histórias nas periferias deu-se, segundo Ripper, quando as pessoas começaram a ficar insatisfeitas com a forma como eram mostradas pela mídia, “como pessoas feias”. “Até a violência que se mostra é aquela que não é praticada pelo Estado.”

Ripper afirmou que está na hora de todos que trabalham com cultura jogarem todo seu afeto e sua visão humanista nas produções: “É preciso documentar a dor, a beleza, mas o fio condutor tem de ser a dignidade.”

Ivana Bentes
Ivana Bentes

Riqueza da pobreza

Para Ivana Bentes, as favelas do Rio de Janeiro não são disputadas apenas pelo tráfico e pelas milícias: “Há também uma disputa pela riqueza da pobreza, que chegou ao mercado”. Afirmou ser importante discutir para onde vai essa riqueza e quem a agencia.

Ela considera a cultura urbana atual um reflexo das tendências criadas pelas periferias. "O mesmo indivíduo que produz coisas que a classe média imita é considerado marcado, suspeito, parte de uma população ‘matável’."

Um dos exemplos dessa influência destacados por ela foi a invenção de um novo feminismo a partir do funk. “Foi um tapa na cara em relação ao comportamento, principalmente das mulheres.” Além disso, “a estética funk entrou na cultura da moda”.

Foi em meados dos anos 2000 que a produção audiovisual vinda da periferia realmente apareceu, de acordo com a professora. "Nela, houve um deslocamento da representação negativa para a positiva, e o mercado ficou atento à inventividade desses novos sujeitos do discurso."

Essa produção passou a disputar a formulação de conceitos e consensos com a universidade, na opinião de Ivana. "A cultura periférica fez as discussões mais interessantes no país nos últimos 10, 20 anos."

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Fotos: Fernanda Rezende/IEA-USP