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Pesquisadores do Programa Ano Sabático de 2021 iniciam suas atividades no IEA

por Letícia Martins Tanaka - publicado 31/12/2020 00:00 - última modificação 11/01/2021 17:52

Sete professores da USP desenvolverão projetos de seis meses ou um ano.

Os sete professores da USP selecionados para participar do Programa Ano Sabático em 2021 iniciam em janeiro suas pesquisas no IEA. Entre os temas a serem estudados, estão ética em inteligências artificiais, influência dos ambientes no desenvolvimento de crianças, literatura marginal, questão de gênero no sistema judiciário, teatralidade colonial, terminologia da Covid-19 e desafios da prevenção desta doença entre jovens. Os projetos foram aprovados pelos membros do Conselho Deliberativo do IEA e divulgados no dia 6 de outubro de 2020, no Diário Oficial do Estado de São Paulo.

Foram selecionados docentes de cinco unidades diferentes da USP: Faculdade de Educação (FE), Faculdade de Direito de Ribeirão Preto (FDRP), Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH); Escola de Comunicações e Artes (ECA) e Instituto de Psicologia (IP). Nesta edição, apenas um projeto terá duração de seis meses.

Programa

O programa tem apoio da Pró-Reitoria de Pesquisa, que concede auxílio a cada participante. Os pesquisadores selecionados ficam dispensados de atividades didáticas e administrativas em suas unidades de origem para que possam se dedicar a pesquisas individuais interdisciplinares durante seis meses ou um ano.

Para participar das seleções anuais do programa, os professores devem estar enquadrados há sete anos no RDIDP (Regime de Dedicação Integral à Docência e Pesquisa). Cada participante deve realizar ao menos uma conferência pública por semestre de participação e produzir um artigo inédito e original ou outro produto acadêmico (livro, exposição, documentário em vídeo ou obra de arte, por exemplo).

Os escolhidos e seus projetos

Ana Laura Godinho Lima - PerfilAna Laura Godinho Lima (FE)

Projeto: Efeitos do ambiente no desenvolvimento psicológico e na educação: análise de discursos.

Período: 1 ano

O objetivo geral do projeto é compreender de que forma diferentes áreas do conhecimento pensam o ambiente no desenvolvimento psicológico e pedagógico infantil, além de como esses saberes se articulam para promover adaptações dos espaços às necessidades das crianças, criando melhores condições para o desenvolvimento.

“Diversos especialistas, não só da psicologia, mas das outras áreas, descreveram os efeitos do ambiente no desenvolvimento dos indivíduos. Ambiente não é só o meio natural, mas todo o meio que circunda a criança, como ambiente afetivo, meio social e urbano”, comentou Ana Laura. Portanto, serão analisados discursos especializados da puericultura, educação, psicologia do desenvolvimento, psicanálise e arquitetura em relação ao ambiente e o desenvolvimento infantil.

O projeto também pretende realizar uma mesa redonda por semestre no IEA sobre o tema da pesquisa. Ao final da categorização dos discursos serão organizadas palestras na Faculdade de Educação e na Escola de Artes e Ciências Humanas sobre os resultados da investigação.

Ana Laura Godinho Lima é professora associada na Faculdade de Educação (FE), onde obteve os títulos de mestre, doutora e livre docente em pedagogia. Também é professora no programa de pós-graduação da Escola de Artes e Ciências Humanas (EACH). Atua nas áreas de psicologia da educação e história da educação, analisando discursos especializados da psicologia sobre a criança e sua educação a partir de uma perspectiva histórica.


Cristina Godoy Bernardo de Oliveira - PerfilCristina Godoy Bernardo de Oliveira (FDRP)

Projeto: Princípios Éticos e Normas Jurídicas para uma Inteligência Artificial (IA) de confiança

Período: 1 ano

O objetivo do projeto é propor um Código de Ética brasileiro para o desenvolvimento das Inteligências Artificiais (IA). Dessa forma, Cristina pretende revisar todos os documentos internacionais a respeito da aplicação de IA e dos princípios éticos relacionados ao tema. Assim, serão encontrados parâmetros dos princípios, normas jurídicas e métodos para viabilizar um código de ética brasileiro sobre inteligências artificiais.

A principal questão a ser analisada, segundo Cristina, é se há necessidade de desenvolver princípios e regras específicos para o Brasil e suas peculiaridades políticas, sociais e econômicas. O projeto também é composto por análises dos métodos técnicos e não técnicos que garantem a confiabilidade de IA e sua aplicabilidade, agregando discussões com especialistas da ciência da computação.

Após as análises bibliográficas e a conclusão das teorias formuladas sobre a aplicação de inteligências artificiais confiáveis, serão analisadas as possibilidades do desenvolvimento econômico sustentável na promoção de IAs sem comprometer o Estado Democrático de Direito. “A questão é sobre se o direito deve ou não regulamentar [o desenvolvimento de IAs], porque há consequências. Se regulamentar muito pode travar o avanço tecnológico, mas precisamos primeiro ter ética comum”, afirma a pesquisadora.

O Código de Ética para o uso e aplicação de IAs será enviado aos poderes legislativos como proposta de adoção nacional ou estadual. Além disso, o projeto prevê a produção de um artigo científico; um livro sobre ética, direito e inteligência artificial; e, por fim, a organização de seminários e palestras.

Cristina é professora de filosofia do direito, inglês jurídico e instituições do direito na Faculdade de Direito de Ribeirão Preto. Atua como professora visitante na Universidade de Oxford, onde desenvolve pesquisas sobre propriedade intelectual. É líder do Grupo de Pesquisa Direito Ética e Inteligência Artificial da USP e coordenadora do Grupo de Estudos Direito e Tecnologia no polo do IEA em Ribeirão Preto. Suas pesquisas abordam temas relacionados com o idealismo germânico, soberania em Hegel, partidos políticos, racionalidade jurídica e direitos fundamentais.

 

Eliane Robert Moraes - PerfilEliane Robert Moraes(FFLCH)

Projeto: O Mangue: erótica das passagens, poética das margens

Período: 1 ano

O projeto visa realizar uma densa interpretação do corpus literário do Mangue, antiga zona de prostituição carioca, consagrado pelo movimento modernista brasileiro. O objetivo de Eliane é concluir um livro sobre o tema da pesquisa e suas conclusões. A publicação será o primeiro estudo extenso e rigoroso sobre as representações literárias do Mangue.

Para tanto, serão analisadas as figuras e formas que constituem o tema como uma poética singular naliteratura do país, segundo Eliane. Também serão feitas relações dos objetos literários com a iconografia que as artes plásticas do período dedicam ao tema do Mangue, abordando os contextos históricos, geográficos e sociais das obras e autores.

Durante o ano, Eliane irá se debruçar sobre a seleção das obras analisadas e a redação do livro. Além disso, pretende realizar dois seminários internacionais no IEA em parceria como programa de pós-graduação de Literatura Brasileira da USP, um a cada semestre, e com a participação de pesquisadores do  Centro de Pesquisa de Países Lusófonos da Universidade de Sorbonne (Paris 3). Eventuais artigos podem ser publicados no processo, assim como a participação em congressos e colóquios para apresentar os resultados da pesquisa.

Eliane é professora de literatura brasileira na Faculdade de Filosofia Letras e Ciências Humanas (FFLCH) e bolsa de produtividade no CNPq. É mestre e doutora em filosofia pela USP, com pós-doutorado na Universidade Paris Nanterre. Desenvolveu e coordenou projetos científicos em colaboração com as universidades francesas Paris 10 (Nanterre), Paris 8 (Vincennes Saint-Denis) e Paris 3 (Sorbonne Nouvelle). Realizou pesquisas sobre a relação entre estética e erótica, a literatura libertina do século 18, o surrealismo francês, erotismo moderno, entre outras. Atualmente se dedica a investigar figuras do excesso na prosa de ficção brasileira dos séculos 20 e 21.


Fabiana Cristina Severi - PerfilFabiana Cristina Severi (FDRP)

Projeto: Políticas e institucionalidades com enfoque em gênero no sistema de justiça brasileiro: mapeamento e análise em perspectiva interseccional

Período: 1 ano

A proposta de Fabiana é entender como políticas e instituições de gênero no sistema judiciário têm melhorado o acesso das mulheres à justiça, principalmente mulheres em condição de vulnerabilidade social. “O olhar e a trajetória da pesquisa pensa essas questões a partir da demanda de mulheres subalternas e periféricas”, afirma a pesquisadora.

A forma como essas institucionalidades executam suas atividades, suas interações com outros segmentos do Estado e da sociedade civil, assim como o papel que possuem para incorporar uma perspectiva de gênero também são objetos de análise para entender como novas instituições internas do sistema melhoram o acesso das mulheres ao judiciário.

Dessa forma, as ações criadas no Poder Judiciário, Ministério Público e Defensoria Pública serão identificadas e categorizadas, especialmente as que foram articuladas após a Lei Maria da Penha (LEI) na esfera federal. As análises serão realizadas a partir da coleta de dados e relatórios publicados pelos próprios órgãos e instituições. A pesquisa também fará questionários e entrevistas com integrantes das instituições encontradas.

O projeto engloba a produção de artigos científicos, um livro com os resultados encontrados, um debate aberto sobre a questão de gênero no acesso à justiça e um seminário voltado a representantes do sistema de justiça para a propagação dos conhecimentos adquiridos.

Severi é professora na Faculdade de Direito de Ribeirão Preto (FDRP) da USP. Suas pesquisas se relacionam aos temas: crítica jurídica e feminista, acesso à justiça para mulheres e teorias democráticas. É líder do Grupo de Pesquisa em Direitos Humanos, Democracia e Desigualdades da USP, participante do Consórcio Lei Maria da Penha pelo fim da violência às mulheres baseada em gênero e membro do Grupo de Pesquisa nPeriferias do IEA.


Ieda Maria Alves - Perfil
Foto: FFLCH/USP
Ieda Maria Alves (FFLCH)

Projeto: Estudo e divulgação da terminologia da Covid-19

Período: 6 meses

O objetivo do projeto é detectar, estudar e divulgar a terminologia da pandemia de Covid-19, para facilitar a compreensão dos termos e informações relacionados à doença para o público não especialista. Por ser um novo termo, usado amplamente, serão observados materiais digitais em português brasileiro, em fontes oficiais e internacionais.

Após a coleta dos materiais, estes serão processados em um software especializado para que a pesquisa possa selecionar os possíveis termos a serem colocados no dicionário, entendendo também os contextos que foram usados. Depois, será realizada a elaboração das definições, com objetivo de tornar a linguagem médica mais acessível.

A divulgação pretendida pelo projeto será feita em uma plataforma digital e de livre acesso, pela publicação de artigos científicos e capítulos de livro, além de seminários e simpósios online abertos à comunidade externa. “Vamos precisar de assessoria médica de docentes da Faculdade de Medicina da USP em todas as fases de análise dos dados levantados”, afirmou a pesquisadora.

O projeto também vai contar com a participação do Projeto CoMet (Corpus Multilíngue para Ensino e Tradução) da FFLCH, responsável pela pesquisa de termos equivalentes em inglês que serão inseridos no projeto, e do Glossário Colaborativo COVID-19, colaboração com a Universidade Nova de Lisboa para pesquisa de variantes do termo em português europeu.

Ieda Maria Alves é professora titular da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas desde 2006, onde atua nas áreas de filologia e língua portuguesa, com a linha de pesquisa voltada para a lexicologia e a lexicografia. Ieda é chefe do Laboratório de Terminologia do Centro Interdepartamental de Tradução e Terminologia (CITRAT) da FFLCH e foi membro do Comitê Executivo da Rede Ibero-americana de Terminologia e membro diretora da Associação Internacional de Linguística do Português (AILP) de 2014 a 2017.


Sérgio Ricardo de Carvalho Santos - PerfilSérgio Ricardo de Carvalho Santos (ECA)

Projeto: Formas da teatralidade colonial: interações cênicas entre jesuítas e tupinambás na América Portuguesa no século XVI

Período: 1 ano

A pesquisa tem o intuito de descrever e analisar as tendências cênicas mais importantes praticadas pelos jesuítas na América Portuguesa no século 16, relacionando as modalidades de espetáculos com a formação espacial das vidas, cidades e aldeamentos indígenas. O principal objeto de estudo é entender a interação entre as formas europeias e as práticas indígenas retratadas em peças jesuíticas.

Sérgio realizará um estudo comparativo entre materiais da época, especialmente das obras que permitem relacionar o projeto missionário com a realidade dos povos indígenas, neste período de mudança das relações com o trabalho escravo. Dessa forma será possível analisar as interações entre os religiosos, poder militar, os colonos europeus, indígenas e africanos escravizados e os aldeões livres.

Ao final será elaborado o livro "A teatralidade na América Portuguesa no século XVI: interações cênicas  entre jesuítas e tupinambás." Paralelamente, está prevista a elaboração de quatro artigos, que servirão de base para a produção do livro. O projeto também pretende realizar dois minicursos, um a cada semestre, sobre os temas da pesquisa.

Sérgio de Carvalho é professor livre-docente da Escola de Comunicações e Artes (ECA), onde atua em pesquisas de teatro, dramaturgia e na relação entre teatro e sociedade. Possui mestrado em Artes Cênicas, doutorado em Literatura Brasileira e Livre-Docência em dramaturgia. Atualmente é diretor do Teatro da USP (TUSP) e vice-diretor do Centro Universitário Maria Antônia.


Vera Silvia Facciolla Paiva - Perfil
Foto: Marcos Santos/Jornal da USP
Vera Silvia Facciolla Paiva (IP)

Projeto: Políticas de controle da Sars-Cov/Covid-19: o desafio da prevenção entre adolescentes e jovens em situação de vulnerabilidade social

Período: 1 ano

O objetivo desta pesquisa é acompanhar e refletir criticamente sobre as políticas de prevenção e controle da Covid-19 no segmento de jovens e adolescentes, tanto nos momentos de escolas fechadas quanto nos períodos de retorno às atividades e readaptação a elas.

Para isso, a pesquisadora pretende sistematizar o resultado de um estudo etnográfico preliminar realizado desde abril de 2020. Vera coordena um grupo no Núcleo de Estudo e Prevenção da Aids (Nepaids) da USP, que tem acompanhado virtualmente cerca de 40 adolescentes, além de alunos de graduação da universidade, para o acolhimento do sofrimento psicossocial.

Segundo Vera, a pandemia tem acentuado cada vez mais o campo da violação e negligência de direitos humanos, podendo produzir maior vulnerabilidade ao adoecimento. O projeto dará especial atenção à saúde mental, sexual e reprodutiva, assim como à prevenção da violência de gênero, especialmente em momentos de distanciamento físico de longa duração.

A discussão sobre essas políticas visa agregar pesquisadores de diversas áreas para debater os limites, dificuldades e possibilidades de sustentar a prevenção à covid-19 a longo prazo e seus impactos nos direitos humanos. “O que eu quero ressaltar é que a prevenção não se reduz à vacina”, afirmou Vera.

A pesquisadora pretende terminar de escrever um livro que vem trabalhando há anos. A obra vai tentar definir e exemplificar a produtividade da noção “Sofrimento Psicossocial”, abordando estudos da sexualidade, gênero e prevenção de doenças associados à desigualdade.

Além da publicação, o projeto também prevê debates sobre novos métodos e concepções para sustentar a prevenção e a resposta social que a pandemia demandou. Esses encontros ocorrerão em seminários e simpósios onlines bimestrais e, se possível, em evento semestral sediado no IEA.

Vera Paiva é professora titular no Instituto de Psicologia (IP), onde leciona psicologia social, e fundadora do Nepaids. Também é professora no programa de medicina preventiva da Faculdade de Medicina (FM) e orienta teses na Faculdade de Saúde Pública da USP (FSP). Suas pesquisas envolvem temas de ciências sociais e humanas, saúde coletiva, políticas públicas, psicologia social, orientação e acolhimento.

Fotos: Arquivo pessoal