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A centralidade da tecnologia no mundo contemporâneo

por Flávia Dourado - publicado 22/10/2013 14:15 - última modificação 12/12/2013 16:07

Em conferência realizada pelo IEA no dia 17 de outubro, Derrick de Kerckhove apresentou sua teoria sobre a tecnologia como novo totemismo.
Derrick Claude Frederic de Kerckhove
Derrick de Kerckhove, discípulo do teórico Marshal MacLuhan, apresenta sua teoria sobre o "tecnototemismo"

O desenvolvimento tecnológico vem causando transformações tão profundas na sociedade contemporânea quanto aquelas vivenciadas durante a Renascença. Mas, se no período renascentista, o gatilho da transição foi o humanismo, responsável por modificar a relação do homem com o mundo natural, agora é a tecnologia, convertida em novo totem, que ocupa o lugar central antes reservado à natureza e cria novos parâmetros para definir o ser humano.

Em síntese, essa é a ideia por trás do “tecnototemismo", teoria desenvolvida pelo sociólogo Derrick de Kerckhove e apresentada por ele na conferência Tecnologia, o Novo Totemismo, realizada pelo IEA no dia 17 de outubro e coordenada pelo antropólogo Massimo Canevacci, professor visitante do Instituto.

Discípulo do teórico canadense Marshal McLuhan (1911-1980), Kerckhove é considerado um dos mais importantes estudiosos das relações entre tecnologias digitais e sociedade. É professor da University of Toronto, onde dirigiu por mais de 20 anos o Programa McLuhan em Cultura e Tecnologia.

USUÁRIO X CONTEÚDO

Para embasar sua teoria, Kerckhove buscou inspiração no pensamento do antropólogo francês Phillip Descola, mais especificamente no conceito de totemismo – forma de identificação entre o homem e o mundo natural marcada pela ausência de ruptura entre cultura (o humano) e natureza (o não-humano).

Transposto para o contexto de uma sociedade tecnológica, explicou Kerckhove, o totemismo se traduz na continuidade entre mente (o homem) e máquina (a tecnologia). Para o sociólogo, essa continuidade traz à tona a máxima mcluhaniana de que os meios condicionam tanto a interioridade quanto a exterioridade dos indivíduos, de tal modo que o usuário se torna o conteúdo.

“Há uma interdependência entre o self e o mundo em rede: a tecnologia tornou-se uma extensão do corpo e passou a ser um elemento definidor da identidade humana”, disse, destacando que o efeito mais sintomático disso é a proliferação de identidades nas redes, de pessoas digitais, de avatares, de números de identificação e entidades eletrônicas, entre outros. De acordo com ele, estaria em curso um processo de mutação antropológica disparado pelo surgimento da informática digital, tal como sugere o teórico francês Pierre Lévy.

CENTRALIDADE DAS REDES

Para ilustrar a centralidade das redes nesse processo de mutação, Kerckhove compara a internet ao sistema límbico – componente do sistema nervoso responsável pelo controle dos comportamentos emocionais e dos impulsos motivacionais, isto é, pelo mecanismo através do qual uma emoção conduz a um processo de tomada de decisão que, por sua vez, leva a uma ação.

Segundo o sociólogo, “estamos passando do biológico para o tecnológico: a internet funciona como um sistema límbico global, pois faz aflorar emoções e paixões capazes de culminar em ações com progressão viral”. Para exemplificar, menciona movimentos que ganharam força nas redes, como a Primavera Árabe, Indignados, Anonymous, Occupy Wall Street, além do ativismo global iniciado pelo Wikileaks e levado adiante por Edward Snowden.

CONEXÃO DE MENTES

“Ao se comunicar pela internet, as pessoas conectam suas mentes e compartilham pensamentos, compondo uma espécie de inconsciente digital”, declarou Kerckhove, introduzindo o que afirma ser sua contribuição à teoria de Freud. O sociólogo comentou que, enquanto não há como provar a existência do inconsciente, “o inconsciente digital está lá, é composto por tudo que é conhecido sobre alguém na rede, por todas as informações das pessoas disponíveis na internet”. Para ele, esse fenômeno está se tornando tão determinante na vida dos sujeitos quanto a influência paterna e materna.

O inconsciente digital afloraria de uma hibridização entre real e virtual, marcada por uma interioridade reduzida, ligada ao self, e por uma exterioridade ampliada, relacionada ao mundo em rede. Segundo Kerckhove, trata-se do resultado de uma nova ansiedade emocional. “O que é a Web 2.0 senão a entrada do fator emoção num ambiente onde só havia informação? As pessoas querem compartilhar notícias e também sentimentos, dicas, pensamentos, opiniões”, ressaltou.

Mas o sociólogo adverte que analisar essa nova realidade requer uma dose de ceticismo, pois o compartilhamento de conteúdos, a multiplicação exponencial do número de emissores nas mídias, a possibilidade de manifestar indignação, o aumento da transparência das informações, a ampliação do transculturalismo, entre outros, vem a um custo alto: a privacidade. De acordo com o conferencista, na era do totemismo tecnológico, tentar ter controle sobre informações pessoais disponibilizadas na internet é como remar contra a maré.

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