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A escritora Conceição Evaristo toma posse na Cátedra Olavo Setubal de Arte, Cultura e Ciência

por Mauro Bellesa - publicado 08/09/2022 16:55 - última modificação 27/09/2022 15:23

No dia 5 de setembro, a escritora e educadora Conceição Evaristo tomou posse, em cerimônia na Sala do Conselho Universitário, como nova titular da Cátedra Olavo Setubal de Arte, Cultura Ciência. Ela foi saudada pela escritura Sueli Carneiro. Participaram também: o coordenador acadêmico da cátedra, Martin Grossmann; a vice-reitora Maria Arminda do Nascimento Arruda; o diretor do IEA, Guilherme Ary Plonski; o diretor do Itaú Cultural, Eduardo Saron; o titular da cátedra em 2020/21, Néstor García Canclini; e Maria Alice Setubal, representando a família Olavo Setubal.

Conceição Evaristo - 5/9/2022
Conceição Evaristo: ''Preencho os vazios das memórias com ficção''

Em cerimônia no dia 5 de setembro que emocionou a todos os presentes na Sala do Conselho Universitário, a escritora Conceição Evaristo tomou posse como titular da Cátedra Olavo Setubal de Arte, Cultura e Ciência, parceira entre o IEA e o Itaú Cultural.

Prestigiaram a posse representantes dos coletivos negros da USP, mulheres negras das áreas da cultura e da política, colegas de Conceição na Universidade Federal Fluminense, pró-reitores e professores da USP, entre outras figuras marcantes da academia e dos movimentos culturais negros e da luta antirracismo.

Para o coordenador acadêmico da cátedra, Martin Grossmann, ex-diretor do IEA, que abriu a cerimônia, a titularidade de Conceição potencializa ainda mais os objetivos do projeto Democracia, Artes e Saberes Plurais (Dasp), implantando pela ativista social, cultural e educacional Eliana Sousa Silva, quando ocupou a cátedra em 2018.

Ele disse que a USP demorou para se engajar nas políticas afirmativas implantadas no país nas últimas décadas, adotando cotas raciais apenas em 2018. Para ele, a escolha da nova titular da cátedra se insere na continuidade dos esforços da nova governança da USP voltados à diversidade e inclusão, marcados pela criação da Pró-Reitoria de Inclusão e Pertencimento (Prip).

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Fotos

Participação democrática

O diretor do Itaú Cultural, Eduardo Saron, afirmou que uma das questões presentes na área cultural há muito tempo é o acesso à cultura. Para ele a nova fronteira é a da participação democrática no mundo cultural. Ele considerou que Conceição significa "a síntese do que é lutar pela democratização".

Representando a família do patrono da cátedra, a educadora Maria Alice Setubal disse que toda a história de seu pai teve um compromisso com o desenvolvimento do país: "Ele idealizou o Itaú Cultural, sendo pioneiro na inovação cultural pela iniciativa privada, sempre com o olhar da pluralidade cultural e o engajamento nas políticas públicas do país".

Participantes da mesa na posse de Conceição Evaristo
Participantes da Mesa da Cerimônia de Posse (a partir da esq.): Eduardo Saron, Sueli Carneiro, Conceição Evaristo, Maria Alice Setubal, Martin Grossmann, Guilherme Ary Plonski e, no destaque, Maria Arminda do Nascimento Arruda

Para Neca (como Maria Alice é mais conhecida), a sociedade está construindo um país plural, como indica "a diversidade que estamos vendo dentro da USP".  São passos importantes, disse, "num processo mais lento do que gostaríamos, mas trazendo uma possibilidade de um país mais justo, democrático e que combata o racismo".

Inclusão e pertencimento

Para a vice-reitora Maria Arminda do Nascimento Arruda, a "feliz escolha de Conceição Evaristo para a cátedra marca um momento importante de viragem da USP, com a Universidade se encaminhando no sentido de redirecionar  e aprofundar os rumos que vinha seguindo quanto ao reconhecimento da diversidade, da inclusão e do pertencimento. "Sem essas mudanças na sociedade, dificilmente poderemos reconhecê-la como democrática e civilizada", afirmou.

"A escolha tem um significado ainda maior por trazer uma escritora ligada à memória coletiva e à necessidade de afirmá-la para construir um outro lugar da narrativa. A literatura de Conceição expressa o caráter redentor da memoria que construiu o brasil. É uma literatura sobre o tempo, sobre a multiplicidades dos tempos, cuja combinação pode produzir a redenção do país", disse a vice-reitora.

Escrevivência

Na saudação à nova catedrática, a escritora e ativista antirracismo Sueli Carneiro destacou que a "escrevivência", conceito de processo criativo criado por Conceição, vem fazendo escola, "ecoando novos gritos de liberdade inspirados em sua literatura insurgente". Disse que essa nova literatura está produzindo novos imaginários, narrativas e personagens, "através dos quais se redimensionam, se reconstróem e se ressignificam imagens consagradas sobre as mulheres negras por aqueles que se outorgaram a legitimidade da fala e da escrita". Citou comentário da própria Conceição em seus escritos: "Persiste no meio literário brasileiro a predominância de um tipo de autor: homem branco, morador de grandes centros urbanos e de classe média. É de dentro dessa perspectiva social que nasce a maioria dos personagens e suas representações”.

Para Sueli, a presença da escritora na Universidade e na cátedra "confronta o 'epistemicídio' sonegador da história e resistência dos negros". O grande tema de Conceição é como, apesar de todas as estratégias de exclusão, "pessoas negras permanecem, se afirmam e recusam a redução de sua humanidade, persistentemente negada pelo racismo", afirmou.

Sueli Carneiro e Conceição Evaristo
A escritora Sueli Carneiro (à esq.) foi a paraninfa de Conceição Evaristo

A literatura de Conceição enfrenta o desafio da decolonização, disse, "atualizando o que é ser negro no presente e ressignificando a representação de suas potencialidades humanas". Isso porque as imagens fixadas dos negros e negras ocultam o que há de extraordinário no processo de subalternização negra, que enseja uma resistência capaz de produzir tipos humanos insondáveis, improváveis pelas condições que os originaram e que seriam fonte inspiradora para uma poderosa dramaturgia, que só engrandeceria os negros e os brasileiros em geral.

Ao final da saudação, Sueli disse que a Casa Sueli Carneiro (instalada na casa onde ela viveu por 40 anos e dedicada a articular seu pensamento com expressões e linguagens negras de continuidade de memória e resistência) e o Geledés Instituto da Mulher Negra, do qual é  uma das coordenadoras, estão à disposição para um diálogo com o projeto de Conceição na cátedra.

Memória

Em seu discurso de posse, Conceição Evaristo pediu a todos, especialmente ao movimento negro, que não a deixem sozinha: "Não me deixem furar o cerco sozinha. Não se consegue nada sozinho, a gente se perde pelo caminho. O aprendizado é sempre uma luta coletiva, ainda mais numa cátedra".

Ao longo de sua fala, ela tributou sua escrita e o fato de ter se tornado catedrática a tudo que viveu no âmbito familiar e na comunidade em que cresceu em Belo Horizonte, nas histórias que ouviu dos parentes com quem conviveu e sobre o que a família vivenciou desde seus bisavós.

Ela comparou sua reverência a essas memórias à figura do pássaro mítico Sancofa (que prefere chamar de ave), da cultura Acã, da África Ocidental, cuja representação tem um ovo no bico e a cabeça voltada para traz, representando, segundo Abdias do Nascimento, o conceito de "retornar ao passado para ressignificar o presente e construir o futuro".

"Preencho os vazios das memórias com ficção. É uma ficção da memória. Houve os parentes que não conheci e as mulheres ancestrais que nunca pegaram num lápis ou num caderno. Estamos acostumados a pensar nos griots [contadores de estórias em muitos países africanos], mas as griotes também parem memórias, às vezes em silenciosa resistência", disse.

Ela ressaltou que não nasceu rodeada de livros, mas de palavras: "Desde criança aprendi a colher palavras, inscritas nos corpos, que falavam pelos corpos de minha mãe e de pessoas que nos cercavam, pelos poucos móveis, paredes de adobe, telhas quebradas e poucos pertences. Tudo falava. Cresci possuída pela oralidade. As bonecas de pano e capim que minha mãe fazia para as filhas nasciam com nomes e história. Tudo era narrativa. Tudo era motivo de prosa e poesia".

Ela afirmou que na cultura africana "tudo é palavra, tudo ajuda a comunicar, tudo é proferido em sons e sinais. É preciso estar na escuta, pois tudo fala, tudo é palavra".

Discurso de Posse de Conceição Evaristo
Publico que lotou a Sala do Conselho Universitário ovacionou Conceição Evaristo no término de seu discurso de posse

Conceição disse que seu projeto na cátedra prevê uma atuação bastante dinâmica. "A ideia é traduzir o saber acadêmico para o público extramuros da USP e vice-versa, promovendo uma investigação interdisciplinar e também autuando na capacitação de professores na produção de novos textos e novas leituras."

O objeto, disse, é estimular uma relação dialógica com saberes produzidos fora da academia, "buscando uma incorporação de novos modos e lugares de produção de conhecimento, de modo que a formação de pesquisadores possa abarcar um campo de ensino e pesquisa o mais amplo possível".

Segundo ela, o trabalho a ser realizado deverá envolver pesquisadores das áreas de linguística, teoria literária e psicologia para pensar a questão da subjetividade e como "a criação a partir de experiências dolorosas como a exclusão explode na arte literária". Também estão previstos seminários para públicos diversificados, de modo a democratizar o conhecimento.

Institucionalidade da cultura

A posse de Conceição também marcou o final de titularidade do antropólogo cultural Néstor García Canclini, que participou da cerimônia por teleconferência a partir da Cidade do México. Desde setembro de 2020, ele desenvolveu o projeto "A Institucionalidade da Cultura no Contexto Atual de Mudanças Socioculturais", que enfatizou a realidade das instituições culturais brasileiras e mexicanas.

Canclini informou que até final do ano será publicado o livro "Emergências Culturais Latino-Americanas", que reúne os resultados das pesquisas realizadas por ele e pelos pós-doutorandos Sharine Melo e Juan Brizuela, além de sua assistente no México, Mariana Martínez Matadamas.

Ele afirmou que a equipe binacional consegui realizar um certo trabalho de campo, apesar da pandemia. Esse período "ressignificou o que é fazer pesquisa", segundo Canclini, uma vez que ocorreu o fechamento da maioria das instituições culturais, como cinemas, teatros, museus e universidades.

Grande parte da pesquisa teve de ser virtual, como entrevistas e busca de documentos, segundo ele. Foram entrevistados pesquisadores e trabalhadores da cultura e gestores de organizações sociais e públicas dos dois países.

Fotos: Marcos Santos/Jornal da USP