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Em novo livro, Walter Neves apresenta um panorama de 45 anos de suas pesquisas
É algo bastante raro que o público brasileiro interessado na evolução da ciência tenha a oportunidade de conhecer a autobiografia científica de um pesquisador do país. Mais raro ainda é quando a obra se revela, ao mesmo tempo, instrutiva, cientificamente rigorosa e de leitura envolvente.
Mas não se poderia esperar menos do antropólogo e arqueólogo Walter Neves, professor sênior do IEA, um cientista sempre comprometido com a divulgação científica ao longo de sua carreira.
O resultado é seu novo livro, “Explorando o Passado Humano: Depoimentos e Aventuras do Arqueólogo que Revelou Luzia ao Mundo” (Fino Traço Editora, 168 páginas, R$ 58,50), lançado nesta sexta-feira, 6 de março.
Neves é popularmente conhecido como o “pai de Luzia”, por ter sido responsável pelo resgate (em 1995), estudo, datação e batismo do crânio humano de cerca de 11,5 mil anos que permanecia esquecido em um depósito do Museu Nacional, guardado em um simples saco de supermercado.
O fóssil havia sido descoberto em 1975 no sítio Lapa Vermelha IV, em Pedro Leopoldo (MG), pela arqueóloga francesa Annette Laming-Emperaire, sendo posteriormente encaminhado ao museu.
“Explorando o Passado Humano” preenche lacunas importantes ao apresentar ao público em geral outras pesquisas paleoantropológicas de grande relevância realizadas por Neves e por seus parceiros e colaboradores no Brasil e no exterior.
No prefácio, Neves afirma que a ideia foi contar “causos”. A partir do relato dos projetos nas áreas de arqueologia e antropologia que desenvolveu nos últimos 45 anos, procurou apresentar conhecimentos dessas áreas ao leitor. Os projetos servem para ilustrar diversos conceitos fundamentais e revelar um pouco dos bastidores da pesquisa, inclusive destacando personagens anônimos que participaram dos trabalhos, para que não se percam na história. O tratamento é temático, e não cronológico, embora haja certa lógica temporal dentro de cada tema.
A obra, porém, não se restringe aos “causos”. Conhecido também por sua defesa incisiva de melhores condições para o trabalho científico no país, Neves dedica os dois primeiros capítulos às dificuldades existentes nas universidades e à obtenção de verbas para pesquisa.
Ele aponta três problemas nas universidades. Um deles é o fato de que “as atividades-meio [funcionários administrativos] predominam sobre as atividades-fim [professores e pesquisadores]”, com uma burocracia ineficiente e, em sua opinião, marcada por desvios de conduta. Em relação ao trabalho docente, Neves questiona a isonomia salarial entre professores no mesmo nível da carreira, o que, segundo ele, beneficia docentes com baixa produtividade científica e de ensino. Também critica o fato de a progressão na carreira não ser acompanhada pela concessão de maior estrutura de apoio: “Sempre digo que, se eu dispusesse de apenas uma secretária ou um auxiliar administrativo, teria produzido duas vezes mais do que produzi.”
No capítulo dedicado ao financiamento da pesquisa, Neves afirma que, apesar de tudo, o Brasil dispõe, no nível federal, de um sistema de ciência e tecnologia relativamente avançado para um país emergente. No entanto, esse sistema é afetado pela inconstância dos recursos, que variam de acordo com a importância atribuída à ciência e com as prioridades de cada governo. Somam-se a isso os cortes orçamentários estabelecidos pelo Congresso e a redução do fluxo contínuo de financiamento (modalidade em que o pesquisador pode submeter projetos a qualquer momento), muitas vezes substituído por editais esporádicos.
Quanto ao financiamento concedido pela Fapesp, Neves destaca a garantia orçamentária da fundação (1% da arrecadação do ICMS do estado de São Paulo), os procedimentos rigorosos de avaliação dos projetos e os complementos à verba básica aprovada, como a reserva técnica para infraestrutura e benefícios adicionais destinados ao custeio de viagens, participação em congressos e estágios de curta duração no exterior.
Ele lamenta, contudo, que, assim como as agências federais, a Fapesp não conceda recursos para apoio administrativo, pois pressupõe que essa estrutura seja fornecida pela instituição do pesquisador, o que, segundo ele, raramente ocorre de forma adequada. Neves também questiona o fato de as universidades paulistas ficarem com 20% dos recursos obtidos pelos projetos, sob o argumento de custear a infraestrutura institucional oferecida ao pesquisador, o que considera uma falácia.
Ainda assim, graças ao apoio da Fapesp, ele afirma que “qualquer pesquisador minimamente arejado”, vinculado a uma instituição de ensino e pesquisa paulista, “pode trabalhar como se estivesse no mundo desenvolvido”.
Os “causos”
Não cabe aqui detalhar os “causos” relatados nos demais 11 capítulos do livro, mas apenas indicar os principais objetivos e resultados das pesquisas. O leitor não familiarizado com o trabalho de Neves terá o privilégio de conhecê-los diretamente por meio de sua narrativa viva, clara e entusiasmada, descobrindo tanto a satisfação proporcionada pelas descobertas quanto as dificuldades e bastidores do trabalho científico.
Neves inicia o relato de sua trajetória profissional falando de sua adolescência como empregado da Rolls-Royce em São Bernardo do Campo e de seu ingresso, em 1978, como técnico de laboratório no antigo Instituto de Pré-História da USP, incorporado ao Museu de Arqueologia e Etnologia em 1989. Ali passou a se interessar por bioantropologia, arqueologia e divulgação científica.
Ainda nesse período, formou-se em biologia, tornou-se pesquisador, iniciou o mestrado em biologia evolutiva, realizou estágio na Universidade Stanford, nos Estados Unidos, e deu início ao doutorado sobre os sambaquis do Paraná e de Santa Catarina.
Mesmo após ser demitido do Instituto de Pré-História em 1985 (“com o apoio, se não com o incentivo, dos corvos da instituição”, em suas palavras) por uma diretora que havia assumido o cargo seis meses antes, Neves conseguiu realizar um curto pós-doutorado em universidades dos Estados Unidos graças a uma liminar judicial. De volta ao Brasil, realizou arqueologia de contrato no rio Xingu e passou a atuar no Museu Paraense Emílio Goeldi.
O capítulo 4 detalha suas pesquisas em sambaquis no litoral sul do Brasil durante o doutorado, ainda como pesquisador do Instituto de Pré-História. O capítulo seguinte relata o trabalho de arqueologia de contrato realizado por ele e por Solange Caldarelli, também demitida do instituto, no rio Xingu, onde o governo federal pretendia construir duas grandes hidrelétricas — Kararaô e Babaquara —, o que exigia um amplo programa de salvamento arqueológico. O projeto, porém, foi cancelado quando o governo desistiu das obras diante de pressões nacionais e internacionais. Somente na década de 2010 seria construída a Usina de Belo Monte, sucessora do projeto de Kararaô.
Os trabalhos mais importantes desenvolvidos por Neves no período em que esteve vinculado ao Museu Paraense Emílio Goeldi, a partir de 1986, são descritos nos capítulos 6 a 8. Entre eles estão as escavações no sítio da Guerra de Canudos, realizadas a convite do reitor da Universidade Federal da Bahia; os projetos desenvolvidos com a arqueóloga Maria Antonieta Costa Junqueira sobre populações pré-históricas do Deserto de Atacama, no Chile; e um grande projeto de antropologia ecológica no município de Ponta de Pedras, na Ilha do Marajó.
O povo de Luzia
As pesquisas que levaram à datação do crânio de Luzia e à sua caracterização, por meio de estudos morfológicos, como paleoamericana (com traços semelhantes aos de africanos e aborígenes australianos) e não ameríndia (associada a traços mongoloides) são apresentadas no capítulo 9. Neves menciona também a identificação de características paleoamericanas em outros fósseis de Lagoa Santa e em diferentes regiões do Brasil e em outros países das Américas.
Ele discute ainda o Modelo de Duas Ondas Migratórias, que propôs com Hector Pucciarelli. Segundo essa hipótese, uma primeira onda migratória teria saído do centro-leste da Ásia e ingressado nas Américas, pelo Estreito de Bering, há cerca de 16 mil anos. Aproximadamente 4 mil anos depois, povos com características mongoloides teriam realizado a mesma travessia. Neves também comenta alguns dos questionamentos feitos a esse modelo.
“Quando Luzia estourou na imprensa e na comunidade acadêmica em 1998/1999, senti-me ainda mais premido a atacar o carste de Lagoa Santa por diversas frentes complementares: arqueologia, geocronologia, geomorfologia, sedimentologia, site formation, paleoambientes, prospecção de sítios fora das cavernas e paleontologia de megamamíferos, configurando-se no primeiro projeto verdadeiramente paleoantropológico brasileiro”, afirma no capítulo 10. Esse foi o projeto Origens, no qual ele e outros pesquisadores buscaram contextualizar a existência de Luzia e de seu povo.
Pesquisas no exterior
Os três últimos capítulos tratam de projetos realizados no exterior, na Geórgia, Jordânia e Romênia. Neves recorda que, até meados dos anos 1990, acreditava-se que o gênero Homo teria saído da África há cerca de 1 milhão de anos, após o desenvolvimento de ferramentas mais elaboradas. Essa ideia foi questionada quando três crânios datados de 1,8 milhão de anos foram descobertos em Dmanisi, na Geórgia, associados a uma indústria lítica simples, baseada em pequenas lascas de pedra.
Em 2002, Neves esteve em Dmanisi com Luís Beethoven Piló para examinar os crânios já encontrados e acabou ajudando na retirada do quarto exemplar (o quinto seria descoberto em 2005).
Quando retornou ao sítio em 2019, acompanhado de Clóvis Monteiro, o objetivo principal era ministrar um curso sobre evolução humana na escola de verão local. Aproveitou também para examinar réplicas dos crânios 4 e 5 e acompanhar o andamento das escavações.
Ele observou que o crânio 4 pertencia ao indivíduo mais senil que já havia analisado em sua carreira, com perda total dos dentes e forte reabsorção dos alvéolos dentários. Isso sugeriria algum grau de solidariedade social entre aqueles hominínios, já que o indivíduo teria dependido do grupo para se alimentar.
O crânio 5, por sua vez, revelou características bastante diferentes: grande robustez, mandíbula extremamente volumosa e tamanho cerebral reduzido. Apesar dessas diferenças, muitos pesquisadores insistem em classificá-los todos como Homo erectus. Neves discorda e propõe que os crânios 1 a 4 sejam classificados como Homo caucasi, uma forma intermediária entre Homo habilis e Homo erectus, enquanto o crânio 5 deveria ser chamado de Homo georgicus.
Em 2017, Neves aposentou-se como professor titular do Departamento de Genética e Biologia Evolutiva do Instituto de Biociências da USP. Mas não interrompeu suas atividades de pesquisa e divulgação científica. No ano seguinte ingressou no IEA como professor sênior, onde coordena o Núcleo de Pesquisa e Disseminação em Evolução Humana.
“Decidi que dali para frente passaria a me dedicar àquilo que tinha sido meu sonho desde criança: buscar nossos ancestrais de milhares ou milhões de anos no Velho Mundo. Ou seja, implantar no Brasil, de fato, uma tradição de pesquisas em paleoantropologia digna do nome”, afirma.
Entre esses projetos está o realizado no vale do rio Zarqa, na Jordânia, coordenado por ele e Fábio Parenti. Segundo Neves, os artefatos de pedra encontrados no local mostraram-se muito mais antigos do que se imaginava. As análises indicam que se tratam de instrumentos lascados por humanos presentes em uma formação geológica datada entre 2,5 e 1,9 milhões de anos, o que desafia a teoria dominante de que os hominínios teriam deixado a África apenas por volta de 1,8 milhão de anos.
Com base nessas evidências e nas descobertas de Dmanisi, Neves e seus colaboradores sugerem que não teria sido o Homo erectus o primeiro hominínio a sair da África, mas sim o Homo habilis.
O livro termina com um capítulo dedicado às pesquisas atuais de Neves na Romênia. Ele e outros pesquisadores brasileiros e romenos realizam escavações em cavernas localizadas em maciços calcários às margens do rio Vârghiș, na Transilvânia.
A motivação do projeto é o fato de que os Bálcãs provavelmente foram a porta de entrada do Homo sapiens na Europa e o local onde teria ocorrido o encontro com os neandertais. Como explica Neves, o objetivo é investigar essa relação em profundidade: “É essencial que se encontrem nos Bálcãs esqueletos neandertais. Essa é a principal razão de implantação do projeto.”
A narrativa termina em 2024, mas o trabalho prossegue. E, quando se fala de Walter Neves, pode-se apostar que novas pesquisas ainda virão, no Brasil e no exterior.
Editora lança 2ª edição de 'A Origem do Significado', que tem Walter Neves como um dos autores
A Editora Gaia lançou este mês a segunda edição do livro “A Origem do Significado: Uma Abordagem Paleoantropológica”, de Walter Neves, Eliane Sebeika Rapchan e Lukas Blumrich. A nova edição faz parte da Série Walter Neves, dedicada à republicação dos livros fundamentais do paleoantropólogo e divulgação de seus novos trabalhos.
Com base em evidências arqueológicas e paleoantropológicas e em observações de primatas, os autores questionam ideias que eram tradicionalmente usadas para definir o ser humano e diferenciá-lo das outras espécies, como a bipedia e os cérebros grandes.
"A única característica que resiste, atualmente para nos separar do restante do mundo animal é nossa capacidade de criar significados. Entendemos a simbolização como a criação de narrativas para os fatos do mundo e a existência de uma vida interior, marcada, principalmente, pelo uso de objetos para além de seu valor prático imediato", afirmam no prefácio da obra.
Eles sugerem que fatores sociais, ecológicos e culturais foram fundamentais para essa diferenciação. A obra também explora a relação entre linguagem, cognição e teoria da mente em relação aos primatas.
Por meio da revisão dos dados sobre artefatos que ajudam a inferir comportamentos dos antigos humanos, os autores apontam formas de simbolização anteriores ao Paleolítico Superior (de 50 mil até 10 mil anos atrás).
Com 144 páginas, o livro contém três capítulos: "O Que É Ser Humano", "A Revolução Criativa do Paleolítico Superior" e "Indícios de Comportamento Simbólico Anteriores ao Paleolítico Superior". Em seguida há uma "Coda" (texto com conclusões), uma seção abrangente de referências bibliográficas, outra sobre os autores e um caderno iconográfico.
Autores
Arqueólogo e antropólogo evolucionista, Walter Neves é professor titular aposentado do Departamento de Genética e Biologia Evolutiva do Instituto de Biociências da USP e professor sênior do IEA, onde coordena o Núcleo de Pesquisa e Disseminação em Evolução Humana (NPDEH). Prestigiado internacionalmente, Neves tem também reconhecimento popular ímpar no Brasil, sobretudo depois de seus estudos de Luzia, o esqueleto mais antigo da América do Sul, e sua proposta de um novo modelo de ocupação humana das Américas. Em 2013, na Jordânia, estabeleceu o primeiro projeto brasileiro de paleantropologia no exterior; Em 2024, instituiu o segundo, na Romênia.
A antropóloga social Eliane Sebeika Rapchan é pos-doutoranda do Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra, Portugal e pesquisadora colaboradora do Laboratório de Arqueologia, Antropologia Ambiental e Evolutiva (LAAAE) da USP e professora voluntária no Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais da Universidade Estadual de Maringá. Há mais de 20 anos atua em primatologia, etnoprimatologia, paleantropologia, arqueologia, antropologia (evolutiva, ecológica e ambiental), humanidades ambientais e estudos animais.
Lukas Blumrich é doutorando em pediatria na Faculdade de Medicina da USP e dedica-se também a estudos de evolução humana. É membro do NPDEH e desenvolve trabalhos de divulgação científica com Walter Neves.
Janina Onuki é nomeada assessora do CNPq
A cientista política Janina Onuki foi nomeada no dia 30 de junho membra titular da Área de Relações Internacionais do Comitê de Assessoramento de Antropologia, Arqueologia, Ciência Política, Direito, Relações Internacionais e Sociologia do CNPq. De acordo com a Portaria 2303/25 do presidente do órgão, Ricardo Magnus Osório Galvão, ela integrará o comitê até 31 de julho de 2028.
Professora titular do Departamento de Ciência Política da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP, Onuki é presidente da Comissão de Pesquisa e Inovação do IEA, onde coordena o Núcleo de Pesquisa de Políticas Públicas (Nuppes).
Ela é pesquisadora responsável do Projeto Temático Fapesp Igualdade de Gênero em Diálogos Bilaterais e Multilaterais de Ciência, Tecnologia e Inovação (Gender STI), editora-chefe da Brazilian Political Science Review e integrante do Comitê Executivo da Innovation and Science Diplomacy School (Innscid), parceria do IEA com o Departamento de Ciência Política da FFLCH-USP.
Onuki graduou-se em ciências sociais e obteve os títulos de mestre e doutora em ciência política pela FFLCH-USP, com estágio sanduíche na Universidade Georgetown e pesquisa de pós-doutorado na Universidade da Carolina do Norte, ambas nos EUA.
Ela foi diretora do Instituto de Relações Internacionais da USP, participante do Programa Ano Sabático do IEA e pesquisadora visitante na Universidade da Cidade de Nova York, EUA, e na Universidade Autônoma de Madri, Espanha. Atuou também como coordenadora da Câmara de Normas e Recursos da Pró-Reitoria de Pós-Graduação da USP e da Área de Pesquisa da Associação Latino-Americana de Ciência Política.
Foto: Leonor Calasans/IEA-USP
Homenagem a Pablo Rubén Mariconda, morto aos 75 anos, será nesta sexta, 23 de maio
Morto no dia 15 de maio, aos 75 anos, Pablo Rubén Marinconda será homenageado nesta sexta-feira, 23 de maio, às 14h, pelo Departamento de Filosofia da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP, onde era professor sênior e onde se aposentou como professor titular. A homenagem ocorrerá no Auditório 14 do Edifício de Filosofia e Ciências Sociais, na avenida Prof. Luciano Gualberto, 315, Cidade Universitária, São Paulo.
No IEA, Mariconda coordenava desde o 2008 o Grupo de Pesquisa Filosofia, História e Sociologia da Ciência e da Tecnologia, cujo tema geral de trabalho é o estudo das relações entre a ciência, a técnica/tecnologia e a sociedade, desde a Antiguidade até nossos dias.
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Leia texto publicado pela Associação dos Docentes da USP (Adusp) sobre a carreira acadêmica de Pablo Rubén Mariconda e manifestações de entidades, amigos e familiares por ocasião de sua morte. |
Trajetória
Nascido na Argentina, Mariconda veio para o Brasil em 1954, aos cinco anos de idade. Desenvolveu toda sua carreira acadêmica no Departamento de Filosofia da FFLCH-USP, da graduação à livre docência (com um pós-doutorado em 2000 pelo Centro Nacional de Pesquisa Científica, na França), do cargo de auxiliar de ensino ainda durante o mestrado ao de professor titular, posição obtida em 2005. Antes de ingressar no curso de filosofia, chegou a estudar no Instituto Tecnológico de Aeronáutica, do qual literalmente fugiu, "pulando o muro durante a noite", segundo sua filha Letícia Mariconda.
Considerado um dos principais responsáveis pela consolidação da área de teoria do conhecimento e filosofia da ciência na USP, também teve como linhas de pesquisa lógica e filosofia da ciência. Além disso, foi um exímio tradutor de obras de Galileu Galilei, René Descartes, Bertrand Russell e outros pensadores.
Mariconda publicou numerosos artigos e ensaios em periódicos de prestígio, além de capítulos de livros. Também foi responsável pela organização de 20 livros. Em 2003, criou a revista Scientiæ Studia, com 60 edições publicadas até 2017, constituindo um acervo de 477 artigos e mais de 520 textos. Em 2004, formou a Associação Filosófica Scientiæ Studia.
Paulo Saldiva é um dos nomeados para a Academia Mundial de Ciências
O ex-diretor do IEA, Paulo Saldiva, professor do Departamento de Patologia da Faculdade de Medicina (FM), assumiu no dia primeiro de janeiro como novo titular da Academia Mundial de Ciências (TWAS, sigla em inglês), ao lado de mais dois professores da USP e de outros sete brasileiros. Eles foram indicados em 14 de novembro do ano passado por outros pesquisadores já associados à instituição, que reconheceram suas contribuições para o avanço da ciência em um país em desenvolvimento. Com a eleição dos novos membros, a TWAS passa a ter 1.444 integrantes, incluindo 159 membros brasileiros.
Eleito na categoria Ciências Médicas e da Saúde, Paulo Saldiva tem uma carreira dedicada à pesquisa e políticas públicas, reconhecido nacional e internacionalmente por suas contribuições significativas à meteorologia e à saúde da população, incluindo melhorias nas previsões meteorológicas e os efeitos sobre a saúde humana, além de estudos sobre a relação entre covid-19, clima e poluição. Sua atuação junto a organizações internacionais, como a Organização Meteorológica Mundial e a Organização Mundial da Saúde, destaca seu papel crucial na ciência global. Ele dirigiu o IEA de 2016 a 2019 e atualmente integra grupos de pesquisa do Instituto.
Excelência na pesquisa científica
A Academia Mundial de Ciências foi fundada em 1983 por um grupo de cientistas dos países em desenvolvimento, sob a liderança de Abdus Salam, físico paquistanês e ganhador do Prêmio Nobel de 1979. Os cientistas compartilhavam a crença de que as nações em desenvolvimento, ao construir força na ciência e engenharia, poderiam construir o conhecimento e a habilidade para enfrentar desafios como a fome, as doenças e a pobreza.
A convocação de novos cientistas pela TWAS, a maior da história da academia, tem o objetivo de promover a excelência em pesquisa científica e tecnológica, especialmente nos países em desenvolvimento, fortalecendo o impacto global das ciências, além de marcar um novo capítulo de cooperação e progresso científico.
Confira todos os eleitos da TWAS no site da entidade neste link.
Com informações do Jornal da USP, da Assessoria de Comunicação do ICMC e da Assessoria de Comunicação e Imprensa da FMUSP
Para Marcos Buckeridge, Brasil é líder na transição energética
Marcos Buckeridge, vice-diretor do IEA e membro do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC), participou de uma conversa ao vivo com o jornalista Eduardo Geraque, nesta quarta-feira (13), para falar sobre a atuação brasileira na 29° edição da Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas (COP 29). O evento começou nesta segunda-feira (11) em Baku, no Azerbaijão, e será finalizado no dia 22 de novembro.
Na conversa, Buckeridge comentou sobre a posição do Brasil na transição energética e as expectativas para a próxima edição, que será sediada pela primeira vez na Amazônia, em Belém (PA).
“Na transição energética, o Brasil é um exemplo para o mundo e nós vamos mostrar isso de uma forma bem clara na COP 30”, declarou Buckeridge. Para ele, o país é um dos principais líderes na produção e uso de energia limpa, com destaque para a elevação da matriz energética de energia solar, eólica e hidrelétrica. “Nós somos um país realmente diferenciado.”
A entrevista completa está disponível no canal do YouTube do Estadão:
Eugênio Bucci e Marina Massimi estão entre os vencedores do Jabuti Acadêmico 2024
Dois pesquisadores do IEA ganharam o Jabuti Acadêmico 2024: Eugênio Bucci, integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo, Direito e Liberdade, e Marina Massimi, coordenadora do Grupo de Pesquisa Tempo, Memória e Pertencimento. A premiação ocorreu nesta terça-feira, 6 de agosto, em cerimônia no Teatro Sérgio Cardoso, em São Paulo.
Bucci foi premiado na categoria Comunicação e Informação com o livro "Incerteza, Um Ensaio - Como Pensamos a Ideia que nos Orienta (e Orienta o Mundo Digital)". Massimi ganhou na categoria Psicologia e Psicanálise com a obra "Memória dos Saberes Psicológicos na Cultura Brasileira".
Outros quatro pesquisadores ligados ao Instituto estiveram entre os cinco finalistas de quatro categorias, entre as quais as que tiveram Bucci e Massimi como vencedores [veja notícia sobre os indicados].
Incertezas e o mundo digital
No livro “Incerteza, um Ensaio: Como Pensamos a Ideia que nos Desorienta (e Orienta o Mundo Digital)”, publicado pela Autêntica Editora, Bucci reflete sobre o princípio da incerteza e a forma como os indivíduos convivem com ela. Ele analisa as dúvidas e questionamentos sobre o mundo digital, o impacto no cotidiano e as mudanças com o surgimento da inteligência artificial.
“No século 21, o negócio da incerteza orienta os destinos do mundo digital. As máquinas participam da gestão do dinheiro e das coisas públicas. Os algoritmos mapeiam intimidades e decifram o circuito secreto do desejo de cada indivíduo. O tempo e o espaço ficaram muito mais incertos para os seres humanos do que para as máquinas”, comenta a editora sobre a preocupações da obra.
Em entrevista à TV Cultura, Bucci explica que a ideia do livro surgiu após uma palestra, onde ele analisou o conceito de incerteza como uma “experiência existencial, como isso que aflige a gente”. A partir de outros estudos sobre o tema, o pesquisador relacionou essa incerteza com o atual cenário tecnológico. “Nós temos muitas incertezas, nós pessoas comuns, sobre como estão sendo tratados os dados da nossa vida por esses gigantes da tecnologia. E esses gigantes têm muitas poucas incertezas sobre como a gente se comporta”, acrescenta.
Bucci é professor titular da Escola de Comunicações e Artes (ECA) da USP e superintendente de Comunicação Social da Universidade. Foi conselheiro do Instituto, coordenador acadêmico da Cátedra Oscar Sala e membro do Grupo de Estudos de Políticas Públicas para a Metrópole Contemporânea. Ética e imprensa, comunicação pública, superindústria do imaginário, informação e cultura democrática são alguns dos temas de suas pesquisas.
Análise dos saberes psicológicos na cultura nacional
Publicado pela Edusp, o livro “História dos Saberes Psicológicos na Cultura Brasileira”, de Marina Massimi, analisa o processo da constituição de saberes psicológicos na cultura nacional a partir de diversas fontes de acervos nacionais e internacionais. De acordo com a editora, as fontes estudadas por Marina abrangem estudos da metade do século 16 até o final do século 18.
A obra inclui tratados filosóficos, correspondência epistolar, oratória sagrada, tratados sobre a arte de educar, novelas alegóricas, literatura de teor autobiográfico e moral e narrativas de festas religiosas e cívicas. “O livro lança luz sobre os conhecimentos e práticas inerentes à vida psíquica existentes antes do surgimento da psicologia científica no século 19 e quem eram seus autores”, afirmam os editores.
Com especialização em psicologia experimental, Marina é professora titular aposentada da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Ribeirão Preto (FFCLRP) da USP é professora sênior do IEA.
6 pesquisadores do IEA são finalistas do Prêmio Jabuti Acadêmico 2024
Por Lívia Uchoa*
A 66° edição do Prêmio Jabuti, promovido pela Câmara Brasileira do Livro (CBL), selecionou seis pesquisadores do IEA como finalistas do Jabuti Acadêmico. Criada este ano, a premiação busca valorizar produções acadêmicas que impactam no progresso cultural e científico do país.
Os indicados entre os cinco finalistas de quatro categorias são: Eugênio Bucci e Francisco Leite (Comunicação e Informação); Marina Massimi (Psicologia e Psicanálise); David Sperling (Arquitetura, Urbanismo, Design e Planejamento Urbano e Regional); e Ana Paula Fracalanza e Silvia Helena Zanirato (Ciências Agrárias e Ciências Ambientais). As quatro categorias pertencem ao Eixo Ciência e Cultura do prêmio.
Considerada a premiação mais tradicional do mercado editorial brasileiro, o Jabuti acontece anualmente para celebrar a produção literária nacional. Os vencedores da versões literária e acadêmica da edição de 2024 serão conhecidos nesta terça-feira, 6 de agosto, em cerimônia no Teatro Sérgio Cardoso, em São Paulo.
Incertezas e o mundo digital
No livro “Incerteza, um Ensaio: Como Pensamos a Ideia que nos Desorienta (e Orienta o Mundo Digital)”, publicado pela Autêntica Editora, Eugênio Bucci reflete sobre o princípio da incerteza e a forma como os indivíduos convivem com ela. Ele analisa as dúvidas e questionamentos sobre o mundo digital, o impacto no cotidiano e as mudanças com o surgimento da inteligência artificial.
“No século 21, o negócio da incerteza orienta os destinos do mundo digital. As máquinas participam da gestão do dinheiro e das coisas públicas. Os algoritmos mapeiam intimidades e decifram o circuito secreto do desejo de cada indivíduo. O tempo e o espaço ficaram muito mais incertos para os seres humanos do que para as máquinas”, comenta a editora sobre a preocupações da obra.
Em entrevista à TV Cultura, Bucci explica que a ideia do livro surgiu após uma palestra, onde ele analisou o conceito de incerteza como uma “experiência existencial, como isso que aflige a gente”. A partir de outros estudos sobre o tema, o pesquisador relacionou essa incerteza com o atual cenário tecnológico. “Nós temos muitas incertezas, nós pessoas comuns, sobre como estão sendo tratados os dados da nossa vida por esses gigantes da tecnologia. E esses gigantes têm muitas poucas incertezas sobre como a gente se comporta”, acrescenta.
Bucci é professor titular da Escola de Comunicações e Artes (ECA) da USP e superintendente de Comunicação Social da Universidade. No IEA, atualmente é integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo, Direito e Liberdade. Foi conselheiro do Instituto, coordenador acadêmico da Cátedra Oscar Sala e membro do Grupo de Estudos de Políticas Públicas para a Metrópole Contemporânea. Ética e imprensa, comunicação pública, superindústria do imaginário, informação e cultura democrática são alguns dos temas de suas pesquisas.
Afetividades LGBTQIA+ na publicidade
“Afetividades LGBTQIA+ Anunciadas: Olhares de Famílias Brasileiras”, de Francisco Leite, aborda as perspectivas e práticas adotadas pelas famílias homoafetivas e heteroafetivas do país quando entram em contato com anúncios publicitários que retratam relações românticas e amorosas entre casais e famílias homoafetivas.
O livro é resultado de pesquisa de pós-doutorado conduzida por Leite na USP, com apoio da Fapesp. Segundo ele, “o livro articula-se a partir da compreensão que a publicidade, para além da sua essência mercadológica, ao implicar linguagem e percepções sociais, deve também ser compreendida como texto e narrativa cultural”.
Publicado pela editora Annablume, o livro apresenta um panorama interpretativo atual sobre essas publicidades e seus impactos nos lares brasileiros. “A obra estabelece um convite inadiável para alargarmos as nossas perspectivas e chaves explicativas de mundo. O reconhecimento do Prêmio Jabuti Acadêmico ao nosso trabalho valoriza e amplia o alcance desse convite que se entende a toda sociedade”, declara o autor.
Leite é pesquisador do Grupo de Pesquisa Inteligência Artificial Responsável da Cátedra Oscar Sala do IEA e do Grupo de Pesquisa Estudos Antirracistas em Comunicação e Consumos (ArC2), vinculado à ECA-USP e ao CNPq. Ele também leciona em dois cursos de pós-graduação da PUC Minas: comunicação, diversidade e inclusão nas organizações; e gestão de diversidade e inclusão nas organizações.
Análise dos saberes psicológicos na cultura nacional
Publicado pela Edusp, o livro “História dos Saberes Psicológicos na Cultura Brasileira”, de Marina Massimi, analisa o processo da constituição de saberes psicológicos na cultura nacional a partir de diversas fontes de acervos nacionais e internacionais. De acordo com a editora, as fontes estudadas por Marina abrangem estudos da metade do século 16 até o final do século 18.
A obra inclui tratados filosóficos, correspondência epistolar, oratória sagrada, tratados sobre a arte de educar, novelas alegóricas, literatura de teor autobiográfico e moral e narrativas de festas religiosas e cívicas. “O livro lança luz sobre os conhecimentos e práticas inerentes à vida psíquica existentes antes do surgimento da psicologia científica no século 19 e quem eram seus autores”, afirmam os editores.
Com especialização em psicologia experimental, Marina é professora titular aposentada da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Ribeirão Preto (FFCLRP) da USP é professora sênior do IEA, onde coordenadora o Grupo de Pesquisa Tempo, Memória e Pertencimento.
Cartografia e independência
Resultado de um estudo feito entre 2020 e 2022, “Atlas do Chão: Constelação Independente” tem David Sperling e Ana Luiza Nobre (PUC-RJ), como organizadores. Eles definem a obra como um experimento contracartográfico e historiográfico, criado como um conjunto de mapas. O livro problematiza o processo de independência e seus desdobramentos. Segundo a editora Rio Books, são discutidos “200 pontos fincados no mapa que configuram múltiplos nexos de sentido, não por alinhamentos cronológicos, mas por associações e montagens no tempo e no espaço; 200 pontos escavados na matéria das (im)permanências e (ind)dependências que as histórias escrevem e as geografias desenham”.
Sperling é professor do Instituto de Arquitetura e Urbanismo (IAU) da USP em São Carlos. Nomeado vice-coordenador do Polo São Carlos do IEA em 2023, ele coordena o Grupo de Trabalho Arte, Ciência e Tecnologia do polo e participa do Grupo de Pesquisa Fórum Permanente: Sistema Cultural entre o Público e o Privado na sede do IEA, em São Paulo.
Produção em ciência ambiental
“Ciências Ambientais: Interdisciplinaridade e Pluralidade Investigativa”, organizado por Silvia Helena Zanirato e Ana Paula Fracalanza, reúne os estudos elaborados no Programa de Pós-Graduação em Ciência Ambiental (Procam) da USP no período de 2020 a 2022. Publicada pela editora Blucher Open Access, trata-se da 15° edição da coletânea.
De acordo com a editora, os setes capítulos do livro trazem “sínteses das dissertações e teses desenvolvidas no âmbito do Procam e expressam características de um programa interdisciplinar e qual métodos, técnicas e propostas de investigação seguem diferentes e diversas perspectivas teórico-metodológicas de, entre outras, ciências da vida, ciências da terra, ciências humanas e ciências exatas”.
Fracalanza e Zanirato integram o Grupo de Pesquisa Meio Ambiente e Sociedade do IEA. Ambas são professoras do Procam e da Escola de Artes, Ciências e Humanidades (Each) da USP, ondem também lecionam no Programa de Pós-Graduação em Mudança Social e Participação Política.
* Estagiária
Carlos Nobre passa a ser um dos Guardiões Planetários

O climatologista Carlos Nobre, pesquisador colaborador do IEA, agora é um dos Guardiões Planetários, iniciativa do empresário britânico Richard Branson (fundador do conglomerado Virgin) para congregar pesquisadores e ativistas que atuam em estudos e análises sobre ação climática e proteção de comunidades vulneráveis.
Nobre é o primeiro brasileiro indicado para os Guardiões Planetários. O anúncio de sua escolha foi feito no final de maio em evento em São Paulo com a participação de Branson.
Ele fez parte da equipe internacional de cientistas integrantes do IPCC (painel da ONU sobre mudanças climáticas), que receberam com o ex-vice-presidente americano Al Gore o Prêmio Nobel da Paz em 2007 pelo papel que tiveram em alertar sobre os riscos do aquecimento global e por lutarem pela preservação ambiental.
Referência internacional por seu trabalho acadêmico sobre clima e aquecimento global, Nobre construiu sua carreira científica no Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), onde se aposentou em 2012, passando a atuar como pesquisador do IEA.
Carlos Nobre recebe medalha “Mérito Ambiental Chico Mendes”
Pesquisador colaborador do IEA, com contribuições destacadas para o estudo das mudanças climáticas, Carlos Nobre recebe da Câmara Municipal de São José dos Campos a medalha “Mérito Ambiental Chico Mendes”.
Convidados políticos, acadêmicos e autoridades de relevância, a sessão de entrega da honraria será nesta quarta-feira (6) às 19h no Plenário “Mário Scholz”, em São José dos Campos.
Proposto pela vereadora Dulce Rita (PSDB), pelos relevantes serviços prestados por Nobre ao município, a honraria é concedida a personalidade, instituição pública ou privada que tenha se destacado na promoção e defesa do meio ambiente. A medalha leva o nome do ativista político assassinado por grileiros de terras em 1988.