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Néstor García Canclini será o novo titular da Cátedra Olavo Setubal de Arte, Cultura e Ciência

por Mauro Bellesa - publicado 22/06/2020 09:50 - última modificação 09/07/2020 11:28

O antropólogo cultural Néstor García Canclini, será o novo titular da Cátedra Olavo Setubal de Arte, Cultura e Ciência a partir de 1º de setembro. Ele desenvolverá o projeto "A Institucionalidade da Cultura no Contexto Atual de Mudanças Socioculturais".

Néstor García Canclini - Casa de América - 2018
Néstor García Canclini

O antropólogo cultural Néstor García Canclini, um dos cientistas sociais mais influentes da América Latina, foi escolhido para ser o novo titular da Cátedra Olavo Setubal de Arte, Cultura e Ciência a partir de 1º de setembro. Ele desenvolverá o projeto "A Institucionalidade da Cultura no Contexto Atual de Mudanças Socioculturais". Para realizar este trabalho, a cátedra está selecionando um pesquisador de pós-doutorado. Leia mais aqui ou visite a página do edital.

Com a participação do antropólogo, o programa Líderes na Arte, Cultura e Ciência, desenvolvido pela cátedra, adquire dimensão internacional. Nascido em La Plata, Argentina, em 1939, ele está radicado desde 1976 no México, onde é pesquisador emérito do Sistema Nacional de Investigadores (entidade similar ao CNPq) e professor investigador do Departamento de Antropologia da Universidade Autônoma Metropolitana, na unidade Iztapalapa, Cidade do México.

Segundo Martin Grossmann, coordenador acadêmico da cátedra, Canclini se destaca na América Latina por transitar com desenvoltura e originalidade pelos meandros socio-político-culturais da região. Ouça a coluna de Grossmann na Rádio USP sobre o assunto.

A escolha de Canclini como novo titular também celebra a renovação por mais cinco anos do convênio entre o IEA e o Itaú Cultural que instituiu a cátedra na USP.

Durante sua titularidade (até 31 de agosto de 2021), Canclini discutirá a questão da institucionalidade da cultura diante das seguintes transformações atuais:

  • o enfraquecimento das instituições culturais públicas e privadas durante a crise neoliberal e a prevalência das aplicações digitais sobre as instituições;
  • as trajetórias dos movimentos independentes em relação à reconfiguração dos mercados culturais e dos hábitos de públicos e usuários;
  • a "descidadanização" da política partidária e as mudanças socioculturais na formação do público;
  • o exercício dos direitos humanos sob os controles tecnológicos, as novas resistências e formas alternativas de organização social.

 

Histórico
O primeiro titular da Cátedra Olavo Setubal foi o filósofo, diplomata e ensaísta Sérgio Paulo Rouanet, que liderou as atividades de 2016. Nos anos seguintes, assumiram a posição o gestor cultural e designer Ricardo Ohtake (2017) e a educadora, pesquisadora e ativista sociocultural Eliana Sousa Silva (2018). No ano passado, excepcionalmente a cátedra teve uma dupla de titulares: o curador Paulo Herkenhoff e a biomédica Helena Nader, que exploraram as relações entre a arte e a ciência na contemporaneidade.

Perfil

Doutor em filosofia pela Universidade de La Plata e pela Universidade Paris Nanterre, Canclini já lecionou em universidades dos Estados Unidos (Austin, Duke e Stanford), Espanha (Barcelona), Argentina (La Plata e Buenos Aires), dentre outras, e também na USP. Em 2014, recebeu o Prêmio Nacional de Ciências e Artes do México.

Atualmente, dedica-se a pesquisas sobre relações entre estética, arte, antropologia, estratégias criativas e redes culturais dos jovens. O foco de seu trabalho é a mundialização e as mudanças culturais na América Latina, com um olhar para as mesclas entre culturas, etnias, referências midiáticas, populares e tradicionais. Também vem se dedicando a temas que interessam tanto às políticas culturais como às relações entre tecnologia e cultura.

Um dos conceitos principais de seus estudos é o de hibridação, apresentado no livro “Culturas Híbridas: Estrategias para Entrar y Salir de la Modernidad” (1990), pelo qual recebeu menção honrosa do Premio Iberoamericano Book Award da Latin American Studies Association de 1992.

Na obra, Canclini elaborou um modelo que considera o papel da hibridação nos processos interculturais próprios da globalização como uma resposta sociocultural à modernidade e ao capitalismo. Na elaboração do modelo, utiliza conceitos da antropologia (diferença), da sociologia (desigualdade) e da comunicação (conexão-desconexão)

Segundo ele, a interculturalidade global, lastreada em novas interdependências transnacionais, envolve confrontação, interconexão, negociação, conflito e empréstimos mútuos e acrescenta novas formas de exclusão e alienação. Também vê a interculturalidade como um processo comunicacional diretamente influenciado pela reestruturação midiática internacional do contato entre culturas.

Outro dos principais temas do trabalho de Canclini é o estudo da relação da cidadania com o consumo. Para ele, o consumo é espaço de configuração da cidadania necessário para a reprodução do sistema social, onde os cidadãos  exercem outro tipo de organização das decisões e seleção do que queremos ou não queremos.

A precarização da vida cotidiana em função das formas atuais de exploração também tem lugar de destaque em seus trabalhos. No entanto, considera que ela também pode dar margem a oportunidades criativas e novas maneiras de interculturalidade. De acordo com Canclini, esses conceitos merecem uma reavaliação diante da forma como os jovens lidam com a precariedade econômica, de trabalho, social e cultural.

Além de "Culturas Híbridas", que teve tradução publicada pela Edusp em 1990, alguns dos principais livros de Canclini são: "Consumidores y Ciudadanos: Conflictos Multiculturales de la Globalización" (1995) (edição brasileira em 2010), La Globalización Imaginada (1999) (publicado no Brasil em 2002); "Diferentes, Desiguales y Desconectados: Mapas de la Interculturalidad" (2004) (lançado no Brasil em 2004). Seu obra mais recente é "Ciudadanos Reemplazados por Algoritmos" (2019) [clique aqui para baixar a versão digital gratuita].

Foto: Casa de América/Espanha/Flickr