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A Descolonização Afro-Asiática e a Intelectualidade Brasileira

por Cláudia Regina - publicado 10/05/2019 14:10 - última modificação 12/06/2019 10:27

Detalhes do evento

Quando

de 10/06/2019 - 14:00
a 10/06/2019 - 16:30

Onde

Sala Alfredo Bosi, Rua Praça do Relógio, 109, Cidade Universitária, São Paulo

Nome do Contato

Telefone do Contato

11 3091-1686

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A Segunda Guerra Mundial e o começo da terceira onda de descolonização, com as respectivas lutas de emancipação dos continentes afro-asiáticos, marca uma época de revolução total para as relações internacionais e seus atores. O mundo divido entre o bloco ocidental e o soviético, conhece o nascimento do Terceiro Mundo, assim como um processo de reorganização das relações internacionais, que são pensadas cada vez mais a partir da oposição entre países desenvolvidos e subdesenvolvidos. De fato, no contexto de tensão internacional da Guerra Fria, a luta contra o colonialismo europeu e a política de “neutralidade positiva” e de não-alinhamento de vários países afro-asiáticos tornam-se fenômenos centrais da cena internacional. Neste mesmo período a ideia de subdesenvolvido se afirma no debate mundial após o termo underdeveloped ter sido empregado publicamente pelo presidente dos Estados Unidos Harry Truman em 1949.

Já conhecemos a postura contraditória do Brasil vis-à-vis do movimento de descolonização afro-asiático, e em particular no que diz respeito ao apoio do governo brasileiro – dentro das principais instituições internacionais da época – às principais potências colonizadoras e ao Portugal de Salazar e sua política ultramarina[1]. Mas quais foram as consequências da aparição do Terceiro Mundo – isto é, das mudanças desencadeadas por esta nova “categoria política” na articulação das formas de pensar as relações internacionais – para a sociedade brasileira, e em particular, para seus intelectuais?

Graça às reflexões de alguns especialistas da história cultural e intelectual da América latina, nós sabemos que este período de mudança na cena internacional representa um momento importante para a compreensão de vários fenômenos centrais da vida cultural da sociedade brasileira no segundo pós-guerra[2]. Assim, segundo o sociólogo francês Daniel Pécaut, “a exaltação nacional” que caracterizou o debate político e social brasileiro entre 1950 e 1964 estava baseada “em um sentimento [nacionalista] difuso em vários setores sociais” que fazia com que, contrariamente ao que pensavam vários críticos da postura nacionalista “o privilégio acordado à “libertação nacional” não tinha nenhum valor de álibi para evitar a luta de classes”. Segundo Pécaut “o Brasil vivia simplesmente na hora do advento do Terceiro Mundo.[3]

Ao longo do evento em questão, gostaríamos de refletir sobre as relações que existem entre o pensamento brasileiro (e seus autores), o espaço atlântico e o continente afro-asiático no contexto da terceira onda de descolonização começada com o fim da Segunda Guerra Mundial. Por meio do estudo destas relações, gostaríamos de analisar os debates que existiam no Brasil relacionados à descolonização afro-asiática e às consequências destas independências no pensamento brasileiro assim como os eventuais traços em comum entre as reflexões desenvolvidas nos países em luta para própria autodeterminação e os países latino-americanos na mesma época.

 

CARATER DO EVENTO:

 

O evento busca abrir um espaço de reflexão para que estudantes a partir do mestrado, assim como especialistas afirmados, provenientes das disciplinas das ciências humanas e sociais possam apresentar os próprios trabalhos de pesquisa relacionados aos temas propostos. O evento será também a ocasião para reunir pesquisadores interessados aos temas abordados, para estabelecer relações e diálogos entre os participantes e fazer um balanço sobre o atual estado do tema tratado deste evento.



[1] C.f., Jerry Dávila, Hotel Trópico: o Brasil e o desafio da descolonização africana (1950-1980), Rio de Janeiro, Paz e Terra, 2011. ; Sarah Luna Oliveira, « Contribuções de Gilberto Freyre para a construção de uma politica externa brasileira em defesa do colonialismo português (1950-1960) », Revista de estudios brasileńos,  2-2, 2015, p. 101‑111. ; Letícia de Abreu Pinheiro, « Ação e omissão : a ambiguidade da política brasileira frente ao processo de descolonização africana, 1946-1960 » Droit et Relations internationales, Pontificia Universidade Católica do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 1988., entre outros.

[2] C.f. por exemplo, François-Xavier Guerra, « L’Euroamérique : constitution et perceptions d’un espace culturel commun », Paris, Organisation des Nations Unies, 2001, vol. 1, p. 183.

[3] Daniel Pécaut, Entre le peuple et la nation: les intellectuels et la politique au Brésil, Paris, Editions de la Maison des sciences de l’homme, 1989, p. 161.A Segunda Guerra Mundial e o começo da terceira onda de descolonização, com as respectivas lutas de emancipação dos continentes afro-asiáticos, marca uma época de revolução total para as relações internacionais e seus atores. O mundo divido entre o bloco ocidental e o soviético, conhece o nascimento do Terceiro Mundo, assim como um processo de reorganização das relações internacionais, que são pensadas cada vez mais a partir da oposição entre países desenvolvidos e subdesenvolvidos. De fato, no contexto de tensão internacional da Guerra Fria, a luta contra o colonialismo europeu e a política de “neutralidade positiva” e de não-alinhamento de vários países afro-asiáticos tornam-se fenômenos centrais da cena internacional. Neste mesmo período a ideia de subdesenvolvido se afirma no debate mundial após o termo underdeveloped ter sido empregado publicamente pelo presidente dos Estados Unidos Henry Truman em 1949.

Já conhecemos a postura contraditória do Brasil vis-à-vis do movimento de descolonização afro-asiático, e em particular no que diz respeito ao apoio do governo brasileiro – dentro das principais instituições internacionais da época – às principais potências colonizadoras e ao Portugal de Salazar e sua política ultramarina[1]. Mas quais foram as consequências da aparição do Terceiro Mundo – isto é, das mudanças desencadeadas por esta nova “categoria política” na articulação das formas de pensar as relações internacionais – para a sociedade brasileira, e em particular, para seus intelectuais?

Graça às reflexões de alguns especialistas da história cultural e intelectual da América latina, nós sabemos que este período de mudança na cena internacional representa um momento importante para a compreensão de vários fenômenos centrais da vida cultural da sociedade brasileira no segundo pós-guerra[2]. Assim, segundo o sociólogo francês Daniel Pécaut, “a exaltação nacional” que caracterizou o debate político e social brasileiro entre 1950 e 1964 estava baseada “em um sentimento [nacionalista] difuso em vários setores sociais” que fazia com que, contrariamente ao que pensavam vários críticos da postura nacionalista “o privilégio acordado à “libertação nacional” não tinha nenhum valor de álibi para evitar a luta de classes”. Segundo Pécaut “o Brasil vivia simplesmente na hora do advento do Terceiro Mundo.[3]

Ao longo do evento em questão, gostaríamos de refletir sobre as relações que existem entre o pensamento brasileiro (e seus autores), o espaço atlântico e o continente afro-asiático no contexto da terceira onda de descolonização começada com o fim da Segunda Guerra Mundial. Por meio do estudo destas relações, gostaríamos de analisar os debates que existiam no Brasil relacionados à descolonização afro-asiática e às consequências destas independências no pensamento brasileiro assim como os eventuais traços em comum entre as reflexões desenvolvidas nos países em luta para própria autodeterminação e os países latino-americanos na mesma época.

Flores Giorgini (IHEAL)

Inscrições

Evento público, gratuito e com inscrição prévia.

Público online não há necessidade de se inscrever.

Programação

 

14h

Abertura do evento e apresentação pelos organizadores

Alexandre de Freitas Barbosa (IEB/USP) e Livia Kalil (IdA)

14h30

Apresentação da pesquisa de doutorado de Flores Giorgini (IHEAL)

Como a descolonização dos países da África e da Ásia afeta a intelectualidade brasileira? O que trazem de novo esses países, ex-colônias, que agora tal como os latino-americanos passam a ser chamados de "subdesenvolvidos", "dependentes" e "periféricos", compondo o variegado Terceiro Mundo? Para além das novas possibilidades de cooperação, defendidas pela política externa independente de Jânio e Jango, como se engaja a intelectualidade brasileira na compreensão desses novos mundos e de suas potencialidades? Qual o papel e a contribuição do Brasil nesse novo quadro mundial?

15h

Comentários e apresentação das professoras convidadas

Ligia Fonseca Ferreira (UNIFESP)

Leila Leite Hernandez (USP)

16h

Perguntas e debate com o público

16h30

Encerramento

Evento com transmissão em: http://www.iea.usp.br/aovivo