Você está aqui: Página Inicial / O IEA / Quem somos / História

História

por Marilda Gifalli - publicado 12/09/2013 12:00 - última modificação 12/07/2017 16:20

O mais jovem Instituto da USP

Grupo de Estudo

Em fevereiro de 1986, no início de sua gestão, o reitor José Goldemberg começou a definir junto à comunidade acadêmica da USP as condições necessárias para a implantação do Instituto de Estudos Avançados (IEA).  Para tanto, foram convidados os integrantes do primeiro Grupo de Estudos encarregado de refletir sobre o que poderia ser essa nova Unidade acadêmica. Os professores convidados foram Alberto Carvalho da Silva, Alberto Luiz da Rocha Barros, Roberto Leal Lobo e Silva Filho e Carlos Guilherme Mota.

No decorrer do primeiro semestre de 1986, o Grupo desenvolveu consultas à comunidade, análises de propostas anteriores e realizou levantamentos históricos sobre outros institutos similares existentes internacionalmente. Com a saída do Prof. Roberto Lobo, que assumiu a vice-reitoria da USP, o Grupo passou a contar com o nome do Prof. Gerhard Malnic e, em 23 de julho, por meio de uma portaria, ocorreu a nomeação formal dos integrantes, sob a coordenação do Prof. Carlos Guilherme Mota.  Em agosto, sintetizando os trabalhos empreendidos pelo Grupo de Estudos, foi apresentado à comunidade acadêmica um documento de trabalho que se constituiu no norteador da filosofia geral que preside o Instituto de Estudos Avançados da USP.

Após várias atividades iniciais que foram definindo os mecanismos de funcionamento do Instituto, o IEA foi oficialmente criado em 29 de outubro de 1986, por meio da Resolução 3.269

. Seu primeiro Conselho Diretor foi composto dos seguintes professores: Carlos Guilherme Mota (diretor), Gerhard Malnic (vice-diretor), Alfredo Bosi, Herch Moyses Nussenzveig, José Galízia Tundisi e Paul Israel Singer.

 

Estatutariamente, competem ao Instituto de Estudos Avançados da USP as seguintes atribuições:

I – Realizar trabalhos de pesquisa e atividades pertinentes a questões fundamentais do pensamento científico e da cultura em geral, privilegiando a interdisciplinaridade, visando ao aprimoramento e à atualização da docência e da pesquisa.
II – Promover conferências, colóquios, programas, seminários e atividades análogas, buscando colaborar com as unidades e demais órgãos da Universidade, visando incentivar a integração entre pesquisadores e docentes da USP e de outras universidades, outros centros de cultura e intelectuais do país e do exterior.
III – Estimular pesquisas e atividades que intensifiquem contatos dos pesquisadores, docentes e alunos da USP com as correntes intelectuais mais significativas de nosso tempo, do país e do exterior.
IV – Incentivar estudos sobre políticas de desenvolvimento da ciência, da tecnologia e da cultura em geral, bem como sobre o uso social do conhecimento, tendo em conta a melhor articulação entre a Universidade e a sociedade.
V – Oferecer estágios, por período determinado, a docentes e pesquisadores da USP e outros intelectuais do Brasil e do exterior, para a realização de atividades que resultem em obra original.
VI – Favorecer novas ideias, resultantes do convívio, do confronto e da interação entre as diversas áreas de trabalho intelectual.
§ 1º – O IEA procurará abranger todas as disciplinas do conhecimento, incluindo as que não constem dos atuais currículos da USP.
§ 2º – O IEA buscará obter o equilíbrio entre especialistas das Ciências e das Humanidades em geral.

Proposta de trabalho

Por que um Instituto de Estudos Avançados na USP?

Fundamentos

A Universidade de São Paulo, criada em 1934, encontra-se numa situação desafiadora: como conseguir, com sua experiência de mais de meio século de vida, criar um fórum central onde seus membros possam intercambiar ideias entre si, convidando colegas a atravessar as fronteiras de suas especialidades e a interagir com cientistas, pensadores, artistas e escritores de projeção nacional e internacional?

A USP constitui o maior centro de ensino e pesquisa do país. É a grande responsável pela produção científico-cultural da rede universitária nacional.  Aglutinando faculdades criadas no século passado, como a Faculdade de Direito (1827) e a Escola Politécnica (1894), os fundadores da USP beneficiaram-se da experiência de institutos, comissões e escolas que antecederam sua fundação, como a Comissão Geográfica e Geológica (criada em 1886, com Orville Derby), a Sociedade de Medicina e Cirurgia, a Escola de Farmácia, Odontologia e Obstetrícia (esta com projeto de escola superior de Bráulio Gomes), a Faculdade de Medicina (de 1913, que adquiriu impulso a partir de 1931, transformando-se num poderoso complexo médico-hospitalar) e o Instituto de Pesquisas Tecnológicas (1934, inspirado no modelo do Massachussetts Institute of Technology).

Nos horizontes da vida científica de então, contavam também as experiências do Instituto Bacteriológico (1983), do Instituto Soroterápico (embrião do Butantã, 1889), do Instituto Agronômico de Campinas (1887-1892), do Instituto Biológico (1924) e, desde 1891, do Museu Paulista, que desenvolvia pesquisas e bibliografia nos campos da História, Zoologia e Etnografia. A partir de 1933, a Escola de Sociologia e Política recrutou uma série de intelectuais nacionais e estrangeiros, ampliando o campo das pesquisas e da reflexão teórica em Ciências Sociais no Brasil.

Nessas instituições, gestava-se o moderno espírito científico, aberto às pesquisas e reflexões de vanguarda que ganhariam uma nova dimensão com a fundação da USP, em 1934, cujo núcleo deveria ser a Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras, segundo a concepção de seus criadores Julio de Mesquita Filho, Paulo Duarte, Armando de Salles Oliveira e Fernando Azevedo. A função precípua dessa faculdade, nuclear no organograma da Universidade, seria estimular a ciência fundamental, numa criativa perspectiva humanista, liberal, interdisciplinar e – vale ressaltar – internacionalista.

Para a nova universidade, importava formar quadros novos, uma nova elite para atualização do país, recrutando talentos onde eles se achassem, por vezes até fora das famílias das oligarquias locais. E, no exterior, souberam os fundadores da USP detectar para os novos quadros universitários jovens ainda pouco conhecidos, como o físico Gleb Wathagin, o antropólogo Lévi-Strauss, o historiador Fernand Braudel ou o poeta Ungaretti. A qualidade era o que importava.

Após 50 anos, a USP, situada numa problemática cidade-limite como São Paulo, tendo vivido conjunturas nacionais difíceis e as vicissitudes de um organismo complexo e hiperburocratizado, vê-se na continência de retomar alguns pontos de sua própria história. Hoje, como reerguer a USP sem repensá-la?

Os acadêmicos uspianos mobilizam-se para repensar a instituição em suas múltiplas funções de pesquisa, de ensino, de formadora de profissionais para a nova sociedade civil. Além de, naturalmente, aprimorar os mecanismos de renovação de seus próprios quadros.

Com efeito, na perspectiva da atual reitoria, a tarefa prioritária é estimular a criação de novos mecanismos de promoção da ciência e dos cientistas, das artes e dos artistas e, em última análise, da própria sociedade que se quer reconhecer nessa instituição eminentemente pública.  Propõe-se o aprofundamento da crítica que romperá com o burocratismo instalado, nos últimos anos, na maior universidade do país.  Burocratismo generalizado que temporariamente a retirou da cena político-cultural nacional.

Para tanto, quando se propõe a criação de um IEA, que pressupõe a participação de intelectuais de máximo nível, não se deve apenas observar o caminho trilhado por outros institutos congêneres. Como o Institute for Advanced Study, de Princeton, fundado em 1930, cujo trabalho concentrado em alguns campos do saber é notável, inclusive por ter abrigado, em seus quadros, um cientista do porte de Albert Einstein.  Impõe-se também – como propõe o Instituto de Estudos Avançados de Berlim (1981) – fazer notar à comunidade universitária nacional a importância de promover a discussão científica, apoiada pela crítica cultural, para além das limitações das disciplinas, das nações e das gerações. No caso da USP, vale enfatizar o exemplo desse modelo, indicando que a colaboração interdisciplinar deve ultrapassar a vida cotidiana estanque de algumas escolas que se isolaram do conjunto. E diminuir as barreiras que por vezes os títulos criaram, em vez de estimularem o convívio acadêmico aberto, crítico e democrático.

Espera-se que o IEA, em formação, saiba incorporar as características da própria história da Universidade em que ele surge, bem como as da cidade e do país em que se situa, ultrapassar suas limitações e vencer seus desafios.

Retomar a discussão dos grandes temas de nossa época, das pesquisas e do conhecimento de vanguarda, da interdisciplinaridade, da possibilidade de avaliação das produções setoriais significativas e inovadoras e do sentido da própria atividade universitária não é, entretanto, tarefa que deva ser pensada isoladamente por um grupo de iluminados. Trata-se, antes, de um convite à reflexão sobre nosso tempo, e sobre os possíveis novos significados da vida intelectual no fim do século XX, num país desafiador como é o Brasil.

Nesse sentido, são oportunas as advertências do professor Aziz Ab'Saber, da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas desta Universidade que, recentemente, lembrava estarem as Universidades do Terceiro Mundo

incluindo em seu projeto básico a gigantesca missão de contribuir para romper as malditas amarras do subdesenvolvimento.  Somente elas – muito antes do que a Igreja e, agora, somando forças com a Igreja e outras instituições – têm capacidade para redirecionar a atenção da sociedade e dos Governos para com os humildes e desprotegidos [...] Caberá à Universidade recuperada a grande tarefa de ser a consciência critica da Nação Brasileira.

Em síntese, com a criação do IEA, a atual reitoria da USP pretende responder a um dos antigos anseios do corpo acadêmico e oferecer um instrumento a mais para que a instituição se reencontre com sua própria história. Estimula-se, assim, um processo endógeno, porém internacionalista, de reflexão crítica. Advirta-se, desde logo, que o modelo adotado – e que deverá ser aprimorado a partir das sugestões do corpo acadêmico uspiano – exclui radicalmente o perigo de se transformar o IEA numa Universidade dentro da Universidade.

O objetivo não é esvaziar as faculdades e os departamentos de suas substâncias; ao contrário. Diversamente de modelos como o Colégio de México, o Collège de France ou a École Pratique des Hautes Études (externos à Universidade), o modelo uspiano de Instituto de Estudos Avançados caracteriza-se pela ativação de um espaço de reflexão onde se cultivem os estudos avançados conduzidos por mestres de excelência nacional e internacional, no interior da instituição.

A natureza do IEA-USP: sua vocação

O importante é ressaltar, também, que a proposta de criação de um IEA vem sendo historicamente defendida pela Associação dos Docentes da Universidade de São Paulo (Adusp). Nesse âmbito, a ideia surgiu em 1979, quando da anistia dos professores aposentados pelos Atos Institucionais. Entre eles, estavam vários cientistas e intelectuais de renome que, distanciados da Universidade em razão das transformações por ela sofrida durante seu afastamento compulsório, poderiam ser abrigados mais adequadamente no Instituto.

A ideia não teve sequência, e somente durante a gestão do Prof. José Jeremias de Oliveira Filho (FFLCH) criou-se uma comissão de estudos, composta pelos professores: Gerhard Malnic (ICB), Alberto Luiz da Rocha Barros (IF), Mario Schenberg (IF), Crodowaldo Pavan (IB), Alexandre Martins Rodrigues (IME), Newton da Costa (IME) e Alberto Carvalho da Silva (ICB). No decorrer do II Congresso da USP, a ideia foi enfaticamente apresentada e aprovada (cf. Jornal da Adusp, n.9, p.16, nov. 1984).

Premissas

Nessa medida, o Grupo de Estudos, considerando que:

Urge ampliar as oportunidades de intercâmbio de ideias do corpo acadêmico da USP entre si, apresentando os resultados desse intercâmbio a um público que não se limita ao meio acadêmico.

a) A investigação de ponta implica especialização cada vez maior, e o pesquisador perde frequentemente contato intelectual com seus colegas de disciplinas vizinhas e até mesmo com seus colegas de sua própria especialidade.
b) Os pesquisadores sentem necessidade de se distanciarem de suas atividades normais de vez em quando, para pensarem suas eventuais descobertas à luz do avanço de outras disciplinas, e de examiná-las num campo de conhecimento cada vez maior.
c) Os pesquisadores sentem necessidade de divulgar os resultados de suas investigações através de documentos mimeografados ou xerocopiados e de circulação rápida, porém restrita, em colóquios e simpósios igualmente restritos e de caráter provisório e especulativo.
d) Os pesquisadores devem ter a oportunidade de, ao menos três ou quatro vezes em sua vida profissional, apresentar uma síntese de seus conhecimentos numa obra escrita, dentro de uma perspectiva mais ampla e humanista que, sem ser uma obra de vulgarização, alcance um público mais amplo.
e) O encontro de pesquisadores de disciplinas diferentes num meio intelectual propício poderá favorecer uma verdadeira interdisciplinaridade; além disso, num país onde muitos intelectuais de envergadura não possuem títulos universitários, objetiva-se uma forma de integração entre o corpo acadêmico da USP e produtores de cultura de outros tipos de formação.
f) A verdadeira interdisciplinaridade – tal como a concebemos – não deve conduzir ao confusionismo metodológico; essa interdisciplinaridade situa-se, antes, no nível da confrontação epistemológica.

No campo das humanidades, ou das Ciências da Cultura, o problema da interdisciplinaridade se apresenta de modo altamente complexo, envolvendo questões de ordem teórica, política e até estética que não são passíveis de equacionamentos simplificadores, e demanda análises que abrangem campos tão diversos como o da Linguagem, da Psicanálise, da Arte, da Filosofia e da própria História.

A USP já atingiu, em várias frentes de pesquisa, um grau de maturidade que solicita uma interlocução mais aguda dessas frentes com outros ramos do saber contemporâneo.

Propõe que:

Objetivos gerais

A reitoria promova a criação de um Instituto de Estudos Avançados, que pode ser definido, preliminarmente:

1) Pela sua atenção aos temas, problemas e investigações "de ponta" do pensamento contemporâneo, com vistas ao aprimoramento e à atualização do corpo acadêmico desta Universidade, intensificando os contatos deste com as correntes intelectuais mais significativas e críticas do nosso tempo.
2) Pelo seu caráter interdisciplinar.
3) Pela sua preocupação com as políticas de desenvolvimento científico, tecnológico e cultural e, em seu âmbito, serão realizados estudos sobre o uso social do conhecimento, visando uma melhor articulação entre a Universidade e a sociedade.
4) Pela sua preocupação básica em promover a colaboração entre os pesquisadores de países diversos e o corpo docente da USP, e entre este e personalidades da vida cultural, nacional e mundial.

Leia texto completo publicado em: Estudos Avançados

Leia mais artigos sobre o IEA em Memória Institucional